O peixe-leão: um invasor como alternativa alimentícia

O uso na culinária do peixe-leão, uma espécie invasora no Oceano Atlântico, além de ser uma inovação gastronômica, tem sido uma excelente oportunidade para o controle da espécie invasora e uma fonte de alimento e renda para as comunidades locais através do comércio.



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O que são as espécies invasoras?

São plantas, animais ou microrganismos nativos de uma região que conseguem sobreviver, reproduzir-se e dispersar-se em uma outra, onde são não-nativos, ou seja, onde foram introduzidos. As espécies invasoras causam danos às espécies nativas e na composição do habitat desse novo ambiente, razão pela qual são reconhecidas como a maior ameaça à biodiversidade4.

O caso do Peixe-leão

Figura 1.

O peixe-leão Pterois volitans (Linnaeus, 1758), é uma das espécies invasoras mais conhecidas nas águas do Oceano Atlântico1. A espécie se caracteriza pelo seu padrão de listras verticais escuras que podem ser marrons, pretas ou vermelhas misturadas com cores mais claras ou brancas. Possui longas nadadeiras com espinhos venenosos, pode alcançar um tamanho do corporal de até 42 centímetros e um peso de até 480 gramas (Figura 1).

O peixe-leão é nativo de uma ampla área que compreende o Oceano Índico e Pacífico Ocidental5. Acredita-se que a introdução do peixe-leão nas águas tropicais do Atlântico tenha ocorrido no início da década de 80, possivelmente por aquaristas que liberaram vários exemplares da espécie no sul da Florida (Estados Unidos). A invasão do peixe-leão é considerada como umas das mais rápidas da história, já que atualmente ocupa um vasto território que compreende Estados Unidos, México, Bahamas, Belize, Honduras, Panamá, Nicarágua e Colômbia, ocupando todo o caribe2.

Por que o peixe-leão é considerado uma ameaça?

O peixe-leão possui uma alta capacidade de reprodução, dispersão, defesa, é um predador voraz que se alimenta de outros peixes e crustáceos nativos da região Atlântica Os impactos ocasionados pelo peixe-leão podem resultar na perda de equilíbrio do ecossistema e a redução das populações de várias espécies de importância ecológica e comercial. O peixe-leão também representa uma ameaça para a comunidade de pescadores e turistas, devido aos espinhos e toxinas venenosas que possui para se defender1.

Para mitigar seu impacto, organizações ambientais da Colômbia, Estados Unidos, México e República Dominicana, uniram esforços com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Atividades de pesca, educação ambiental, conscientização, comercio e consumo do peixe-leão tem sido desenvolvidas nos diferentes países afetados.

O peixe-leão na gastronomia 

Na Colômbia existem várias iniciativas relacionadas ao consumo do peixe-leão, um alimento muito nutritivo e delicioso. Um exemplo a ser destacado é a labor que está realizando o reconhecido chefe de cozinha colombiano Jorge Rausch, que comanda os restaurantes “Criterion” em Bogotá e “Marea” em Cartagena. Rausch, tem trabalhado ativamente em cooperação com algumas empresas privadas, para promover a campanha denominada “Mar adentro”, que incentiva o consumo do peixe-leão afim de torná-lo um alimento de consumo diário.


A ideia do chefe de cozinha foi colocada em prática quando foi convidado para preparar um jantar em uma reunião internacional. Ele queria proporcionar aos convidados algo diferente, então, pensou no peixe-leão. A comida foi um sucesso! Assim que ao finalizar o jantar e após de dizer aos seus convidados que tinham comido pratos preparados com este peixe, Rausch decidiu promover o consumo do peixe-leão e dessa forma ajudar na conservação do meio ambiente.

Uma das tarefas mais difíceis tem sido convencer as pessoas de que apesar do peixe-leão possuir espinhos tóxicos como mecanismo de defesa, a carne é totalmente comestível.

Um dos produtos da campanha ecológica de Rausch é o seu livro “Pez León”, onde apresenta 20 receitas inovadoras e de fácil preparação. Uma das tarefas mais difíceis tem sido convencer as pessoas de que apesar do peixe-leão possuir espinhos tóxicos como mecanismo de defesa, a carne é totalmente comestível.

Outro exemplo de destaque do uso do peixe-leão na gastronomia colombiana é o “Torneio de captura e concurso de preparação do Peixe-leão” realizado todo ano no Parque Natural Tayrona, uma área protegida na região Atlântica. No primeiro dia do evento os participantes são limitados à captura do peixe-leão. No segundo dia acontece o concurso de preparação, onde os participantes apresentam seus pratos e receitas especiais feitas com o peixe-leão. Estas atividades fazem parte do projeto “Áreas Protegidas e Diversidade Biológica”.

Em 2018, o ganhador do concurso foi Roberto Pardo, chefe de cozinha do restaurante “Rincón Caribe” em Santa Marta. Pardo afirma que o peixe-leão é uma vasta quantidade proteínas, com o qual as pessoas podem preparar receitas deliciosas. 

O uso do peixe-leão na culinária, além de ser uma inovação gastronômica, tem sido uma excelente oportunidade para o controle da espécie invasora e uma fonte de alimento e renda para as comunidades locais através do comércio

Uma pesquisa realizada em 2015 pelo o “Instituto de Investigaciones Marinas y Costeras José Benito Vives de Andréis (INVEMAR)”, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, reportou que a maioria dos pescadores e moradores no Caribe colombiano afirmam que as populações de peixe-leão têm diminuído comparado ao início da invasão. No entanto, em Cartagena uma parte da comunidade afirma que as populações permanecem constantes apesar dos esforços3.  

O uso do peixe-leão na culinária, além de ser uma inovação gastronômica, tem sido uma excelente oportunidade para o controle da espécie invasora e uma fonte de alimento e renda para as comunidades locais através do comércio. Na Colômbia e muitos outros países da América Central, não existem restrições para a pesca do peixe-leão, pelo qual é possível que dessa vez a sobrepesca de uma espécie, possa salvar muitas outras. 

Richard Rasmussen

Referencias

  1. Arbeláez, N. & Acero, A. (2011). Presencia del pez león Pterois volitans (Linnaeus) en el manglar de la bahía de Chengue, Caribe colombiano. Boletín de Investigaciones Marinas y Costeras, 40(2), 431-435.
  2. González, J., Grijalba-Bendeck, M., Acero, A. & Betancur-R, R. (2009). The invasive red lionfish, Pterois volitans (Linnaeus 1758), in the southwestern Caribbean Sea. Aquatic Invasions, 4(3), 507-510.
  3. Instituto de Investigaciones Marinas y Costeras (INVEMAR). (2015) Seguimiento de la distribución del pez león al 2015 con base en información de monitoreo ecosistémico y geoportal y aplicación Android de avistamientos. Santa Marta, Colombia. 35pp.
  4. Mack, R. N., Simberloff, D., Mark Lonsdale, W., Evans, H., Clout, M. & Bazzaz, F. A. (2000). Biotic invasions: causes, epidemiology, global consequences, and control. Ecological applications, 10(3), 689-710.
  5. Schultz ET (1986) Pterois volitans and Pterois miles: two valid species. Copeia 3: 686-690 al 2015 con base en información de monitoreo ecosistémico y geoportal y aplicación Android

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Mirtha Angulo

emailmirtha.angulo@revistabioika.org

Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.

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Físico e estudante de doutorado em Física da Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Como entusiasta das ciências e da filosofia, acredito que o conhecimento transforma o indivíduo e sua cultura. Penso que a socialização das ciências ajuda a criar uma sociedade mais crítica, justa e independente de seus governantes.


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