O que perdemos com o desaparecimento das abelhas?

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Muito mais do que produtoras de mel, as abelhas são agentes polinizadores. Representam uma das maiores responsáveis pela oferta de alimentos para a humanidade e indispensáveis na manutenção da biodiversidade do planeta. E justamente por isso, seu desaparecimento em diversas localidades é alarmante.



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A natureza nos fornece diversos benefícios que são fundamentais para a nossa qualidade de vida e sobrevivência, conhecidos como serviços ecossistêmicos. A purificação do ar, a fertilização do solo pela matéria orgânica, a decomposição realizada pelos microrganismos, o fornecimento de madeira, o alimento (como frutas, verduras, sementes) e a polinização são alguns exemplos desses serviços.

Abelha

A polinização, em especial, é o processo que garante a reprodução de diversas plantas e a produção de frutos e sementes, sendo um dos principais mecanismos de manutenção e promoção da biodiversidade na Terra. Ela é realizada através da transferência do pólen das flores masculinas para as femininas e, a partir disso são produzidos os frutos e sementes. Essa transferência pode ser realizada pelo vento ou pela água, mas na maioria dos casos, quem realiza esse trabalho são os polinizadores, como abelhas, vespas, borboletas, aves, pequenos mamíferos, dentre outros. Nesse caso, as plantas apresentam artifícios para atrair os polinizadores, como cheiros, cores, formatos e sabores. Muitas vezes, existe uma relação dependente entre a planta e seu respectivo polinizador, que pode ser exclusivo, ou seja, para determinada espécie de planta existe apenas um polinizador. O benefício é mútuo: o polinizador adquire alimento e involuntariamente garante a reprodução sexuada das plantas.

As abelhas são os principais agentes polinizadores, se beneficiando tanto do pólen (fonte de proteína) quanto do néctar (para produção do mel) das flores. Compreendem mais de 20 mil espécies no mundo, e dentre elas estão os meliponíneos, que não são capazes de ferroar e são distribuídos principalmente nas zonas tropicais e sub-tropicais do planeta, como a África e a América do sul. As abelhas mais utilizadas na apicultura são capazes de ferroar, dentre elas, a espécie Apis mellifera, que pode ser um híbrido do cruzamento de abelhas da Europa e da África, e são conhecidas como abelhas do mel ou africanizadas.

 Muitos alimentos como maçã, melão, café, maracujá, laranja, soja, caju, uva, limão, cenoura, dentre outras, dependem do trabalho delas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, em inglês), a polinização por esses insetos gera US$ 54 bilhões por ano, sendo responsável por pelo menos 1/3 da produção mundial de alimentos, polinizando 85% das florestas e 70% das culturas agrícolas.

Mas, os principais polinizadores da natureza estão desaparecendo. As abelhas começaram a abandonar suas colmeias, um fenômeno conhecido como Distúrbio de Colapso de Colônia (CCD, em inglês). Simplesmente elas não retornam e suas colmeias são encontradas vazias. Os primeiros relatos apontando o desaparecimento em larga escala de abelhas surgiram nos Estados Unidos, sendo que das 5 milhões de colmeias estimadas em 1988, hoje restam metade. Além da América do Norte, atualmente este problema também se manifesta na Europa e na América Latina. Na Europa, a redução chegou a 53%, e no Brasil, a quase 30%.

A causa do desaparecimento desses insetos não está totalmente esclarecida, mas sabe-se que não existe apenas uma única razão, e sim vários fatores, ocasionados pelo impacto humano ou não. Um estudo da Universidade de Harvard associa esse fenômeno com o uso dos inseticidas à base de neonicotinóides (derivados da nicotina). Ao entrar em contato com essa substância, seja ao visitar uma flor contaminada ou por pulverização aérea do agrotóxico, são gerados problemas de memória de navegação nas abelhas, que se desorientam e perdem a capacidade de retornar às colmeias, morrendo longe das mesmas. Outro fator é o desmatamento (provocado pela expansão da agricultura e pecuária) e a exploração de madeira, que reduzem as áreas de floresta. Assim, a oferta de alimentos a esses insetos também é reduzida e são destruídos ninhos ou áreas de nidificação (áreas para construção dos ninhos). Também é possível atribuir o sumiço das abelhas à causas naturais, como doenças que prejudicam a digestão do pólen e encurtam suas vidas. Existem ácaros que se alimentam de seus fluidos corporais e vírus que deformam suas asas e agem no sistema nervoso, causando paralisias. Ambos os casos são fatais.

Plantação

Como consequência, o desaparecimento das abelhas pode impedir ou reduzir drasticamente a reprodução de muitas espécies de plantas, levando ao desequilíbrio dos ecossistemas e a perda da biodiversidade. A produtividade agrícola também está em risco, podendo ocasionar forte impacto à economia global. Se por um lado, atividades agrícolas e pecuárias são vistas como lucrativas, por outro, elas podem estar comprometidas por elas mesmas.

As soluções para reverter esse quadro englobam o monitoramento deste fenômeno, a realização de controles biológicos das pragas ou desenvolvimento de defensivos não nocivos às abelhas e, principalmente, a conservação dos habitats. Afinal, ao degradar o meio ambiente, a polinização e muitos outros serviços ecossistêmicos são reduzidos. Assim como o caso das abelhas, que geram bilhões de reais/ano, qual seria o valor monetário dos demais serviços que a natureza nos oferece? O valor é imensurável! Mas, com certeza usufruir dos recursos de maneira sustentável e a preservação do meio ambiente também é lucrativo. Na realidade, a perda dos serviços ecossistêmicos nos custaria muito caro!

Para mais informações:


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Rosa Dias

emailrosa.dias@revistabioika.org

Bióloga com Doutorado em Ecologia pela Universidade Estadual de Maringá (PEA/UEM). Considero que só através da socialização do conhecimento poderemos alcançar uma sociedade mais justa. Tenho grandes e diversos sonhos! Um deles é acreditar que a educação amplia as almas e recria os horizontes; é a alavanca das mudanças sociais!

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Bárbara Angélio Quirino

emailbarbara.quirino@revistabioika.org

Bióloga e mestranda em ecologia pela Universidade Estadual de Maringá. As pequenas ações individuais são primordiais, mas somente quando estendemos nosso conhecimento para outras pessoas e unimos forças é que, de fato, podemos revolucionar o mundo.

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Alfonso Pineda

emailalfonso.pineda@revistabioika.org

Sou biólogo colombiano, finalizando doutorado no Brasil. Acredito que qualquer uma das áreas do conhecimento pode contribuir para a melhoria da vida dos demais, e que a educação é uma ferramenta poderosa. Além disso, acredito que o acesso a informação permite às pessoas maior protagonismo social.

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Carolina Gutiérrez Cortés

emailcarolinagc@revistabioika.org

Sou microbióloga e trabalho com a geração de novas alternativas para o processamento saudável de alimentos mediante o uso de aditivos naturais. Espero poder compartilhar este conhecimento e aproveitar as experiências de outras pessoas. Por isso, acredito no desafio de comunicar com uma linguagem simples tudo o que é produzido na academia.


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