Diminuição da produção pesqueira: quem é o responsável?

Os pescadores são apontados há décadas como causadores da diminuição da produção pesqueira; este trabalho representa um desafio para a gestão clássica da pesca, que considera a degradação ambiental como a principal causa desse fenômeno.




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Vista do Rio Magdalena localizado entre os vales da Cordilheira dos Andes e cercado por imponentes montanhas.

Historicamente, a sobrepesca tem sido considerada a principal responsável pela diminuição da pescaria na bacia andina do rio Magdalena, que tem sua foz no Caribe colombiano, sem levar em conta outras fontes de impactos.

A bacia do rio Magdalena representa 23% da Colômbia e abriga aproximadamente 80% da população nacional e é lá onde se desenvolve a maior parte da atividade econômica do país. Estima-se que 65% dos ecossistemas da bacia têm sido alterados e que a pescaria passou de 70 mil toneladas por ano na década de 70, a menos de 30 mil toneladas na atualidade.

Esta situação motivou os autores do artigo que hoje resenhamos a procurar outros fatores que pudessem afetar a pescaria. O que encontraram foi que aproximadamente 60% da diminuição na pesca resulta na verdade da degradação ambiental.

A bacia do rio Magdalena representa 23% da Colômbia e abriga aproximadamente 80% da população nacional e é lá onde se desenvolve a maior parte da atividade econômica do país.

As análises sobre as pescarias convencionais não levam em conta fatores externos que possam influenciar sua diminuição. Por exemplo, os rios são ecossistemas que têm sofrido múltiplos impactos ao longo dos últimos 100 anos, que têm afetado sua funcionalidade devido a alterações do fluxo da água, a erosão das margens, e a transformação dos hábitats para as diferentes espécies que os habitam.

A confluência de tantos fatores faz com que seja necessário ajustar as ferramentas de manejo, de maneira que considerem os efeitos ambientais, além dos antrópicos diretos, como a pesca. O manejo clássico das pescarias tem se baseado na regulação dos tamanhos dos indivíduos capturados, os aparelhos de pesca, aspectos reprodutivos e o estabelecimento de áreas de reserva.

Outros fatores que afetam os peixes:

Pesca artesanal no rio Magdalena

Toda esta pressão antrópica gera diferentes impactos sobre os peixes. Por exemplo: a) a construção de hidroelétricas afeta as migrações e a reprodução, b) a alta concentração de mercúrio gerado com a mineração afeta também a reprodução e o fornecimento de proteína animal, uma vez que o mercúrio pode passar através dos diferentes níveis da cadeia alimentar c) a degradação dos ecossistemas compromete o desenvolvimento das larvas e juvenis dificultando o crescimento das populações de peixes e d) as mudanças no uso do solo principalmente pela agropecuária alteram a composição de nutrientes disponíveis que eventualmente entram na água e acabam afetando a produtividade primária e a própria produtividade pesqueira.

O desmatamento especificamente é um dos fatores que mais afeta os ecossistemas aquáticos pois está presente em 79% das áreas de pesca da bacia em grau severo. Além disso, favorece a entrada de sedimentos na água, o que pode ter efeitos na alimentação dos peixes devido às mudanças na oferta de fontes de alimento.

Efeito da construção de barreiras que alteram o fluxo normal dos rios época de cheia
Efeito da construção de barreiras que alteram o fluxo normal dos rios_época de seca

Além da pesca, o que mais afeta os peixes da bacia do rio Magdalena?

Os autores do artigo encontraram que existe relação entre as condições do fluxo da água do rio e a produtividade pesqueira, assim como que a concentração de mercúrio tem um efeito negativo e tardio na saúde reprodutiva dos peixes. Por outro lado, encontraram que uma maior produtividade pesqueira se associa a maior cobertura vegetal das margens, menores densidades populacionais e baixa exploração de ouro.

Os autores estimaram ainda que 60% de queda na pescaria deve-se à degradação de fatores ambientais, o que indica que a abordagem tradicional de manejo, enfocada quase exclusivamente no controle sobre os pescadores, está equivocada. Tudo isso é mais evidente ao considerar que a) a população humana continua aumentando, incrementando o desmatamento, as mudanças bruscas do uso da terra e a entrada de sedimentos nos ecossistemas aquáticos; b) a construção de reservatórios afeta a reprodução dos peixes, aumenta a fragmentação das populações e diminui as áreas de dispersão de juvenis, c) a extração de ouro afeta a reprodução pois causa alteração na proporção de sexos e diminui a capacidade de sobrevivência dos descendentes.

No caso particular da bacia do Magdalena, ao longo das últimas décadas, a produção pesqueira diminuiu e se estabilizou sem recuperação pela somatória de vários fatores como as mudanças associadas ao volume de água, o incremento de extração de ouro, o aumento do desmatamento e o incremento de sólidos suspensos na água.

Pescadores artesanais da bacia média do rio Magdalena no pântano El Llanito
Jovem pescador no pântano El Llanito, bacia média do rio Magdalena

Na bacia do rio Magdalena, ocorre um fenômeno ecológico fundamental para a manutenção dos peixes conhecido como pulso de inundação, típico de rios tropicais, que consiste em eventos alternados de enchentes e secas com seus respectivos períodos de transição. Durante o pulso de inundação o fluxo da água deve ser suficientemente grande para permitir aos peixes uma migração ascendente, buscando trechos mais altos do rio, bem como para encher as planícies das zonas baixas garantindo que o sistema seja capaz de receber os juvenis que vêm das zonas altas. Estes níveis mínimos de fluxo da água são importantes pois níveis inferiores afetam a produção, como ocorre nos rios regulados onde se altera o pico da intensidade da cheia, se interrompem as rotas migratórias, diminui a conectividade entre os canais de água e aumenta a fragmentação de hábitat.

é necessário reformular a gestão pesqueira da bacia e considerar um enfoque ecossistêmico, pensado desde a governança local, envolvendo a diminuição dos serviços ecossistêmicos e seus impactos socioculturais.

A diminuição das pescarias da bacia do rio Magdalena é um fato, assim como também é um fato que a abordagem que tem se dado a este assunto não é adequada, pois não considera a degradação ambiental, que se revela como o principal impacto sobre a pesca, e se concentra em “castigar” os pescadores sem considerar os fatores que afetam a bacia em uma escala mais integral. Por esta razão é necessário reformular a gestão pesqueira da bacia e considerar um enfoque ecossistêmico, pensado desde a governança local, envolvendo a diminuição dos serviços ecossistêmicos e seus impactos socioculturais.

Pesca artesanal no reservatório El Quimbo, Huila Colômbia

Este artigo representa uma contribuição fundamental para América do Sul pois os recursos pesqueiros tendem a diminuir nas diferentes bacias da nossa região e o modelo de gestão das pescarias em geral se concentra na regulação dos pescadores e não na garantia da integridade ecológica da bacia.

Artigo original disponível em: https://tspace.library.utoronto.ca/handle/1807/107773

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