O que os olhos não veem a biodiversidade sente: A ameaça de espécies exóticas na Amazônia

Mais de 30 pesquisadores, incluindo representantes de seis países da América do Sul, coordenados por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) publicaram um estudo inédito, revelando números alarmantes de ocorrências de espécies de peixes exóticos na região amazônica, o que permitiu analisar a situação atual da bacia amazônica e como a legislação de cada país atua com relação a estas espécies.




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A bacia do rio Amazonas é a maior do continente americano, reunindo sete países e cobrindo uma área de sete milhões de km2. Reconhecida por sua biodiversidade e seu papel fundamental na regulação do clima da região, esta bacia sofre muitas ameaças causadas pelas atividades humanas, como desmatamento e mineração.

A região amazônica é um dos locais mais importantes do mundo, pois abriga a maior floresta tropical e um dos maiores rios do planeta. Essa região é habitat de milhares de espécies de peixes de água doce e reconhecida pela sociedade e pela comunidade acadêmica como uma região que sofre constantemente com diversos impactos negativos causados pelos humanos, tais como, a pesca ilegal e desordenada, a construção de barragens, mineração, queimadas, desmatamento ilegal, entre outros. É inegável que a relação do ser humano com a natureza está longe do ideal e da sustentabilidade. Há cada vez menos fiscalização efetiva, e um amplo boicote aos órgãos ambientais públicos, os quais vêm amplificando a destruição das florestas e dos rios em território nacional. Entretanto, alguns problemas são mais evidentes e ganham as manchetes dos jornais e revistas, enquanto outros impactos negativos estão longe dos olhos da mídia e se tornam ameaças silenciosas. A ameaça da vez são as espécies exóticas, que são espécies introduzidas em outros locais fora da sua área de ocorrência natural. Elas representam um risco para a biodiversidade aquática, para a dinâmica do complexo ecossistema amazônico e para a segurança hídrica regional

Amazonía
Recentemente, um grupo de mais de 30 pesquisadores, incluindo seis países da América do Sul (Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela), coordenados por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) publicou um estudo inédito, revelando números alarmantes de ocorrências de espécies de peixes exóticos na região amazônica. Neste estudo, foram compilados diversos bancos de dados contendo registros de ocorrências geográficas dos peixes exóticos nessa região, o que permitiu analisar a situação atual da bacia amazônica e como a legislação de cada país atua com relação a estas espécies.
Biodivesidade amazônica

A maioria destes peixes chegam ao ambiente natural através da aquicultura, como por exemplo a tilápia do Nilo Oreochromis niloticus, espécie dominante nos cultivos e que já tem seus impactos negativos aos ecossistemas exaustivamente documentados. Ela também possui um amplo incentivo na legislação de alguns países como o Brasil e a Bolívia, que estimula seu cultivo e torna o cenário ainda mais complexo.

Peixes amazônicos: Piranha
Peixe amazônico: Cascudo
Peixes amazónicos: cajaro

Um caso particular da região envolve o pirarucu (Arapaima gigas), nativo da planície da bacia hidrográfica do rio Amazonas, mas foi introduzido como peixe de cultivo na Bolívia e no Peru. Houve escapes desta espécie de peixe para os rios, como acontece com a maioria das espécies exóticas e assim ela se espalhou para várias bacias na região onde não ocorre naturalmente, como a do rio Madeira. Muitos dos peixes encontrados também são de interesse comercial na aquariofilia, e podem acabar sendo despejados nos rios por diversos motivos.

Os pesquisadores apontaram um aumento ainda mais acentuado nos registros de ocorrência e de novas espécies exóticas na região amazônica nas duas últimas décadas. Mais de 1314 indivíduos de 41 espécies exóticas de peixes foram identificadas na bacia amazônica. Esses números são preocupantes e podem indicar que, apesar de a região amazônica ainda possuir áreas bastante conservadas, aos poucos as alterações humanas estão disseminando as espécies exóticas, as quais estão alterando esse ambiente único e tão importante para o planeta. Além de ser uma fonte de impactos significativa para a biodiversidade aquática, as espécies exóticas também causam impactos econômicos e sociais para as comunidades tradicionais, que dependem da pesca artesanal. Essas espécies podem causar redução nas populações de peixes nativos, desequilíbrio na cadeia alimentar e até mesmo levar outras espécies endêmicas à extinção.

Registros de espécies introduzidas na Amazônia e representação da metodologia de estudo

Um dos principais problemas é que, ao contrário das espécies nativas, as exóticas geralmente são mais bem adaptadas, e resistem às alterações e impactos ambientais. Dessa forma, elas tendem a competir de forma superior, especialmente em longo prazo, com os peixes nativos. O resultado destas alterações são a perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, e ainda o comprometimento da segurança hídrica e alimentar da região. Outro agravante é que, dada a complexidade da região amazônica e a dificuldade de acesso para estudos, podemos estar perdendo recursos naturais que sequer sabemos da existência ou da importância para o ecossistema.

As soluções para estes problemas dependem de investimentos relevantes e integrados dos governos em fiscalização, monitoramentos, pesquisas, conservação e manejo na região amazônica. Enquanto houver negligência nestas áreas e um interesse direcional em favorecer apenas determinados setores da economia, sem considerar os princípios básicos de sustentabilidade e os riscos ambientais, estaremos nos aproximando cada vez mais de um beco sem saída, onde a Amazônia e seus preciosos recursos naturais poderão se tornar um deserto monotônico e inóspito.

Artigo original disponível em: https://doi.org/10.3389/fevo.2021.646702

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