Urbanização e invasão biológica: como uma mão lava a outra?

Os riachos estão entre os ambientes aquáticos que mais tem sofrido impactos devido à proximidade dos centros urbanos. No conteúdo da seção Ecoando “Urbanização e invasão biológica: como uma mão lava a outra?”, saiba como a urbanização pode criar ambientes adequados e favorecer a proliferação de uma espécie invasora.

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    Maria Julia Mileo Ganassin

    emailmjganassin@hotmail.com

    Licenciada em Ciências biológicas pela Universidade Estadual de Maringá. Mestre em Ciências Ambientais pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais. Atualmente é doutoranda pela mesma instituição. Atua na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia trófica de peixes e Ecologia de reservatórios.

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    Carolina Mendes Muniz

    emailcarolina_mendes_muniz@hotmail.com

    Bióloga, mestre em Ciências Ambientais pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais (PEA-UEM). Atualmente é doutoranda pela mesma instituição. Atua nas área de ecologia, com ênfase em ecologia de peixes e reservatórios.

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    Augusto Frota

    emailfrota.augusto@gmail.com

    Biólogo, mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual de Maringá e atualmente doutorando pela mesma instituição. Atua na área de Zoologia, com ênfase em biogeografia histórica, sistemática e ecologia de peixes de água doce.



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Invasores urbanos

As áreas urbanas são consideradas uma séria ameaça à natureza que se encontra ao seu redor. Ambientes aquáticos, especialmente os riachos, estão dentre os que mais sofrem impactos com a proximidade dos centros urbanos. O rápido crescimento das cidades invade cada vez mais as áreas naturais dos riachos, os quais acabam sendo incluídos nas matrizes urbanas. Esse fato provoca modificações na paisagem natural devido ao aumento da poluição e construção de áreas pavimentadas, impermeabilizando o solo ao redor desses corpos aquáticos. Além disso, essas alterações da matriz urbana provocam mudanças bruscas nos aspectos físicos e químicos do próprio corpo aquático, como a vazão hidrológica (volume de água que escoa por uma determinada seção do rio), a temperatura da água, a quantidade de oxigênio disponível e, ainda, características do solo. Isso significa que a proximidade entre centros urbanos e riachos afeta a sobrevivência das comunidades biológicas aquáticas, desde os micro-organismos até os peixes, provocando alterações em toda a teia alimentar desses ambientes. E é especificamente sobre os efeitos da urbanização na alimentação dos peixes que se trata este trabalho.  

Riachos inseridos em áreas urbanas sofrem modificações na vegetação ao seu redor. A vegetação ripária tem um papel muito importante na manutenção das condições ideais para os peixes e para os demais organismos com os quais se alimentam. Em situações onde a área ripária é perdida e substituída por vias pavimentadas, ocorrem reduções significativas na disponibilidade de alimento para os peixes, de modo que esses organismos necessitam ajustar sua alimentação nesses ambientes alterados. O problema é que nem todos são capazes de se adaptar às novas condições ambientais.

Riacho rural
Riacho urbano

Mas você pode estar se perguntando: onde é que entra a invasão nessa história? Muitos riachos, especialmente os urbanizados, sofrem com a constante introdução de peixes invasores (aqueles que não são nativos daquele lugar). Esses peixes invasores geralmente são mais resistentes às alterações ambientais, têm maior facilidade em se adaptar ao ambiente impactado, como é o caso dos riachos urbanizados, e são melhores competidores quando comparados às espécies de peixes nativas. Um exemplo de peixe invasor que ocorre em abundância tanto nos riachos de áreas urbanas quanto nos mais preservados de áreas rurais é o barrigudinho (Poecilia reticulata). Esta espécie nativa do noroeste da América do Sul e ilhas adjacentes do leste do Caribe, vem sendo amplamente distribuída pelo mundo como animal de estimação ornamental ou como agente no controle de mosquitos por se alimentar de suas larvas aquáticas. 

Estudos já mostraram que o barrigudinho é uma espécie capaz de alterar seu comportamento alimentar diante de situações adversas e manter seu desempenho populacional (fitness). Nesse sentido, nosso estudo avaliou a dieta e a seleção de presas pelo barrigudinho em riachos urbanos e rurais inseridos na bacia do rio Pirapó, no sul do Brasil, a fim de verificar se a espécie altera sua dieta e seu fitness.

Fêmea de peixe Barrigudinho
Macho de peixe Barrigudinho

Nossas análises mostraram que a dieta do barrigudinho variou de acordo com o tipo de riacho. Nos riachos urbanizados, a espécie apresentou uma dieta menos diversa quando comparada aos riachos rurais, evidenciando que existe uma menor quantidade de presas disponíveis para os peixes em áreas urbanizadas. Entretanto, embora a diversidade e disponibilidade de presas tenha sido menor em riachos urbanos, foram capturados mais indivíduos – e estes apresentaram maior tamanho e peso corporal quando comparados aos riachos rurais.

Abundancia de peixe barrigudinho em riachos rurais e urbanos (rótulos em espanhol)

Esses resultados evidenciam que os riachos urbanizados parecem oferecer melhores condições para a proliferação da espécie invasora, mesmo sendo um ambiente degradado e com menor disponibilidade de alimento. A habilidade da espécie em tirar vantagens do que se encontra disponível no ambiente aparentemente contribuiu para o seu sucesso nos ambientes urbanizados. Como nem todas as espécies de peixes (especialmente as nativas) conseguem tolerar as alterações provocadas pela urbanização, é possível que os indivíduos de barrigudinho nos riachos urbanos foram mais abundantes e maiores devido às menores interações competitivas nesses ambientes.  

Portanto, observamos que, embora haja alteração na dieta do barrigudinho entre os tipos de riachos, isso não foi um problema para sua população. A dieta flexível da espécie invasora provavelmente oferece vantagens competitivas ao tentar colonizar e se estabelecer em novos ambientes. Ainda, as alterações causadas em decorrência da urbanização parecem aprimorar o fitness da espécie, o que evidencia como essas alterações nos ambientes podem favorecer espécies invasoras em relação às nativas. Assim, a identificação de adaptações alimentares em ambientes com alto grau de distúrbio, como é o caso de ambientes urbanizados, é fundamental para fornecer subsídios sobre o processo de estabelecimento de espécies invasoras.


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Taise Miranda Lopes

emailtaise.lopes@revistabioika.org

Sou bióloga e doutora em ciências ambientais pela Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que o acesso ao conhecimento, seja através de políticas públicas e divulgação científica, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais empática, justa e sustentável.

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Aleja Vélez Denhez

emailaleja.velez@revistabioika.org

Estou interessada no estudo de tecnologias sustentáveis que contribuam na diminuição do impacto ambiental das nossas ações cotidianas. Acredito que compartilhar o conhecimento é um dever do pesquisador, e criar consciência do impacto que as nossas decisões têm sobre a saúde do planeta é um passo necessário para a sua preservação.

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Ana Marcela Hernández Calderón

emailana.hernandez@revistabioika.org

Comunicadora social e jornalista da Universidad de la Sabana com 19 anos de experiência na área editorial. Estou convencida de que compreender a nossa mãe Terra e descobrir todas as suas mecânicas de vida, pode nos dar pistas e motivação para cuidar dela. É por isso que é indispensável que todos nós possamos acessar essa informação.

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Bárbara Angélio Quirino

emailbarbara.quirino@revistabioika.org

Bióloga e mestranda em ecologia pela Universidade Estadual de Maringá. As pequenas ações individuais são primordiais, mas somente quando estendemos nosso conhecimento para outras pessoas e unimos forças é que, de fato, podemos revolucionar o mundo.

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Carolina Gutiérrez Cortés

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Sou microbióloga e trabalho com a geração de novas alternativas para o processamento saudável de alimentos mediante o uso de aditivos naturais. Espero poder compartilhar este conhecimento e aproveitar as experiências de outras pessoas. Por isso, acredito no desafio de comunicar com uma linguagem simples tudo o que é produzido na academia.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Lucas Waricoda

emaillucas_nobuo@revistabioika.org

Músico e jornalista, já fiz um pouco de tudo nessa vida – o suficiente pra saber com quem e pelo que me entregar. Passei por jornais impressos, digitais, revistas, rádios, agências de publicidade e continuo tentando aprender a aliar tudo isso com a rotina maluca de uma banda autoral independente.


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