A face ecológica da ocupação israelense na Palestina

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As guerras e os conflitos armados são devastadoras também do ponto de vista ambiental - essas métricas são difíceis, mas os impactos são profundos e duradouros

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Floresta Biriya e os Montes Golan, em primeiro plano. Ao fundo, sob as nuvens, o Monte Hermon. Localizada na região norte de Israel, foi plantada na sequência da limpeza étnica de seis vilas palestinas, com recursos do Fundo Nacional Judeu.

O colonialismo verde transforma ecossistemas palestinos e usa a natureza como instrumento de controle e apagamento cultural


Para além das políticas de apartheid e do genocídio em curso contra o povo palestino, a ocupação promovida pelo estado sionista de Israel também se manifesta de forma profunda no campo ambiental e ecológico, transformando ecossistemas e paisagens como parte de uma lógica colonial de controle territorial. Tentativas de documentar os impactos biológicos resultantes da ocupação israelense são uma forma de reivindicação da história e identidade palestinas frente à manipulação e dominação da narrativa social, cultural e científica por Israel e seus aliados¹. 

Alguns dos impactos ambientais em território palestino incluem a restrição do movimento de espécies causada pela construção de muros, a degradação e fragmentação de habitats, o aumento da erosão, a compactação do solo pelo sobrepastoreio forçado, o declínio de populações nativas e a introdução de espécies exóticas². Tais impactos, que naturalmente configuram ameaças à fauna, flora e recursos naturais, são exponenciados frente à situação de conflito armado no território, quando o manejo da biodiversidade e a gestão do território são tudo menos prioridade — ou possibilidade. Essas alterações estão entrelaçadas a consequências sociais e econômicas, como a queda na produtividade agrícola, a redução da oferta de alimentos, o bloqueio do acesso à água e a inviabilização de terras cultiváveis. Além disso, políticas de restrição de acesso e circulação impostas aos palestinos dificultam o monitoramento ambiental e a implementação de estratégias de conservação, perpetuando e amplificando os impactos ecológicos da ocupação³.

 
Fuga de palestinos

Quando o presente é “apenas” continuação da História

Na Cisjordânia, território da Palestina Ocupada desde 1967, o mercado ilegal de animais silvestres prospera na ausência de regulações legais, consequência direta das restrições impostas à Autoridade Nacional Palestina. Diversas espécies invasoras estão presentes, como as aves Psittacula krameri (periquito-de-colar), Myiopsitta monachus (caturrita), Euodice malabarica (bico-de-chumbo-indiano), e Acridotheres tristis (mainá-indiano)4. A gestão ambiental nos Territórios Palestinos Ocupados também é profundamente limitada pela ocupação israelense. Das 19 áreas protegidas que deveriam ser transferidas à administração palestina pelo Acordo de Oslo, apenas oito estão efetivamente sob controle do Ministério da Agricultura, totalizando menos de 15 km². As limitações decorrentes da ocupação fragmentam e limitam a pesquisa científica na Palestina, gerando lacunas significativas sobre a biodiversidade local, comprometendo a formulação de estratégias de conservação e colocando em risco a integridade física e a vida de cientistas e pesquisadores em campo5.


A Nakba (catástrofe, em árabe), processo de limpeza étnica perpetrado por forças paramilitares sionistas, envolveu o desterro em massa da população palestina e a destruição e o confisco de suas propriedades no contexto da fundação do Estado de Israel entre 1947 e 1949. Isto resultou na expulsão de mais de 800.000 habitantes de vilas e cidades palestinas6 — entretanto, existem argumentos consistentes indicando que o processo da Nakba se iniciou antes de 1947 e persiste até hoje7.

 
Campo de refugiados palestinos. / Imagem: Pixabay - hosnysalah

Posteriormente, a ocupação israelense promoveu a remoção e substituição da vegetação nativa por espécies exóticas, em um esforço de reconfiguração simbólica e estética do território ocupado segundo padrões europeus8. Esse processo implicou na remoção de espécies de importância ecológica e cultural, como as oliveiras, cujos cultivares tradicionais expressam a ligação histórica do povo palestino com a terra e são consagrados na tradição islâmica como emblemas de paz, longevidade e luz divina9. Essas espécies foram substituídas por mais de 166 espécimes, das quais 50 são consideradas ameaças ao ambiente, como pinheiros, eucaliptos e Prosopis spp. A Biriya, propagandeada como a maior floresta plantada da Galileia (região no norte de Israel), foi construída pelo Fundo Nacional Judeu através da limpeza étnica de seis vilas palestinas10. Atualmente, esse território é promovido como ponto turístico que “abriga uma variedade de locais fascinantes — bosques, nascentes, uma antiga sinagoga, uma caldeira de cal, tumbas reverenciadas, flora diversificada, trilhas para caminhadas e mirantes panorâmicos”11. Na Cisjordânia e Gaza, sobre os vestígios de comunidades palestinas dizimadas e expulsas (como as vilas Beit Nuba, Imwas, Yalu, e Ayn al-Zaytun) constrói-se uma narrativa de beleza e misticismo que procura apagar a violência de sua origem. Até hoje, mais de 800 mil oliveiras palestinas foram removidas por Israel12.

 
Oliveiras palestinas. / Imagem: Pixabay - ulleo

Impactos que escapam as métricas dos efeitos das guerras

A ocupação israelense não se limita a ceifar direitos humanos, políticos e territoriais. Ela se manifesta também no colonialismo verde, em que a natureza é usada como ferramenta de controle e apagamento da presença histórica palestina. Espécies nativas são substituídas por exóticas, florestas artificiais são criadas, e paisagens são remodeladas para ocultar a violência. O colonialismo verde é uma extensão ambiental da ocupação, mostrando que a luta pela terra e pelos recursos naturais está intrinsecamente ligada à resistência cultural e à preservação da identidade palestina.

 
Mulher pinta mapa que representa a diversidade dos territórios palestinos


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Para mais informações:

  1. 1. HASSOUNA, Silvia. Cultivating biodiverse futures at the (postcoloni-al) botanical garden. Transactions of the Institute of British Geogra-phers, v. 49, n. 2, p. e12639, jun. 2024.
  2. 2. ABDALLAH, Tanya; SWAILEH, Khaled. Effects of the Israeli Segre-gation Wall on biodiversity and environmental sustainable devel-opment in the West Bank, Palestine. International Journal of Envi-ronmental Studies, v. 68, n. 4, p. 543–555, ago. 2011.
  3. 3. HUSEIN, Duaa; QUMSIYEH, Mazin B. Impact of Israeli Segregation and Annexation Wall on Palestinian biodiversity. Africana Studia - Revista Internacional de Estudos Africanos, v. 1, n. 37, p. 19–26, 2022.
  4. 4. HANDAL, Elias Nabil; AL-SHOMALI, Saed Lorance; AMR, Zuhair Sami. Trade in exotic birds in the West Bank, Palestinian Territories. 2023.
  5. 5. QUMSIYEH, Mazin; AMR, Zuhair. Protected Areas in the Occupied Palestinian Territories. 2021. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/348249014_Protected_Areas_in_the_Occupied_Palesti nian_Territories
  6. 6. PCBS – PALESTINIAN CENTRAL BUREAU OF STATISTICS. Spe-cial Statistical Bulletin on the 67th Anniversary of the Palestinian Nakba. Ramallah, Palestine, 2015. Disponível em: https://www.pcbs.gov.ps/portals/_pcbs/PressRelease/Press_En_Nakba2015E.pdf.
  7. 7. AL JAZEERA. The Nakba did not start or end in 1948. [S. l.], 23 maio 2017. Disponível em: https://www.aljazeera.com/features/2017/5/23/the-nakba-did-not-start-or-end-in-1948.
  8. 8. BUXBAUM, Jessica. How Israel is erasing the Nakba through nature. The New Arab, 15 maio 2023. Disponível em: https://www.newarab.com/analysis/how-israel-erasing-nakba-through-nature
  9. 9. HARB, Jamil; NASER, Munir. A Garden Among the Hills: The Floral Heritage of Palestine. Revisão científica: Sumaya Farhat Naser. Ra-mallah: The Palestinian Museum, 2019. 238 p. Obra bilíngue: árabe e inglês.
  10. 10. SASA, Ghada. Oppressive pines: Uprooting Israeli green colonialism and implanting Palestinian A’wna. Politics, v. 43, n. 2, p. 219–235, maio 2023.
  11. 11. Keren Kayemeth LeIsrael – Jewish National Fund (KKL-JNF). Biriya Forest – Magic & Mysticism in the Upper Galilee. Disponível em: https://www.kkl-jnf.org/tourism-and-recreation/forests-and-parks/biriya-forest/. Acesso em: 10 out. 2025.
  12. 12. UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOP-MENT (UNCTAD). The besieged Palestinian agricultural sector. New York; Geneva: UN, 2015. iv, 41 p. Disponível em: https://unctad.org/webflyer/besieged-palestinian-agricultural-sector


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