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Mariana Meerhoff

emailmm@dmu.dk

Mariana Meerhoff é bióloga, professora e pesquisadora na Universidade da República, no Uruguai, e também pesquisadora associada à Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Seus principais temas de pesquisa incluem ecologia aquática de lagos subtropicais e o efeito das mudanças climáticas sobre os mesmos.

Entrevista: Mariana Meerhoff (Parte 1)

A uruguaia Mariana Meerhoff, proeminente professora e pesquisadora em limnologia com vários prêmios por seu trabalho, compartilhou conosco seu conhecimento sobre mudanças climáticas globais. Não deixe de ouvir esta palestra feita em 2015, ainda válida e pertinente.



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Revista Bioika: Na sua opinião, quais seriam os maiores impactos das mudanças climáticas para espécies aquáticas e terrestres?

Mariana Meerhoff (MM): Bem, existem vários efeitos sobre os quais existem um consenso na comunidade científica e uma grande quantidade de efeitos que ainda não sabemos o suficiente, entende? Porque as investigações científicas levam muito tempo e tem que ser validadas. Você tem que comparar os resultados com outras investigações. Então, para alguns temas se está gerando muito conhecimento, mas ainda não existe um acordo, sabe? Mas para alguns processos existe sim um consenso. Alguns efeitos que podemos esperar que já estão acontecendo é a extinção local de espécies aquáticas que não tem a possibilidade de resistir a essas mudanças na temperatura pois não estão acostumadas a estarem nesse ambiente e não têm a capacidade de ajustarem sua fisiologia, sem comportamento e não podem se deslocar, entende? Não conseguem encontrar outro lugar no mundo que tenha a temperatura que elas necessitam. Então, em muitos lugares se está observando que algumas espécies começam a desaparecer. E se forem espécies raras que só são encontradas naquele lugar, essa extinção é uma extinção para sempre, entende? De toda a espécie. 

Estamos observando também que aquelas espécies que podem se deslocar ou que podem ser movidas por outras, pelo vento, pela água, e por outros animais estão se expandido para zonas mais frias. Isso quer dizer, no hemisfério sul, que estão se movendo um pouquinho, só um pouquinho por ano, quilômetros por década em direção ao sul, em direção à Antártida, buscando temperaturas mais frias. E espécies que vivem nas montanhas vão subindo um pouquinho, entende? Já estamos vendo isso. Isso pode levar à sobrevivência de algumas espécies. Porém, elas começam a provocar mudanças no lugar em que chegam, porque elas têm que interagir com outras espécies que estavam lá. E isso não sabemos necessariamente que efeitos podem ter. Mas, muitas dessas espécies que estão se deslocando são espécies invasoras que, até hoje, eram controladas pela baixa temperatura atual, mas sabemos que esse aumento de temperatura favorece essas espécies. Então, elas estão chegando a novos lugares, espécies que nós sabemos que geram impactos ecológicos e econômicos muito fortes. Por exemplo, podemos esperar uma expansão de plantas flutuantes como o aguapé, que pode se expandir para o sul e começar a gerar problemas de qualidade da água, de transmissão de doenças, problemas para a navegação, onde hoje essa planta não é um problema, sabe? Então, essas são coisas que esperamos, que sabemos que estão acontecendo.

Outro processo que também tem um consenso entre os cientistas é que muitas espécies, para sobreviver, estão modificando o momento em que elas se reproduzem, por exemplo. Com o aumento da temperatura, estes organismos, plantas, animais invertebrados, vertebrados, percebem como se a primavera tivesse começado antes. Então, interpretam essa mudança no clima como um sinal para começar. Por exemplo, uma planta ao florescer, ao apresentar flores e produzir sementes, qual é o problema disso? Se todas as espécies responderem da mesma maneira não haveria problema. Se todas adiantarem um pouquinho essas respostas, não haveria nenhum problema. Mas o que vemos é que algumas espécies podem fazer esse ajuste e outras não. Mas talvez algumas adiantem, não sei, alguns dias, e outras adiantem uma semana, duas semanas. E aí começam a haver problemas. Por exemplo, se as plantas que comemos, as colheitas, começarem a adiantar um pouco sua época de floração, mas os organismos polinizadores, como as abelhas, não se adiantarem no mesmo momento, quem vai polinizar nossas plantações? Isto é, começa a ter um problema que não é somente ecológico, também pode afetar a geração de comida para nós. Então, isso também é um problema que estamos vendo que ocorre tanto em sistemas terrestres como aquáticos. E que está se informando para algumas espécies (?). No entanto, são áreas de conhecimento que ainda estão sendo desenvolvidas, sabe? Estamos produzindo esse conhecimento.

Outros efeitos que também podemos esperar é, por exemplo, no caso dos peixes, que começam a se reproduzir, e em zonas quentes como aqui, eles se reproduzem não só antes, mas também por mais tempo, mais vezes, e isso começa a modificar as relações dentro de uma assembleia de organismos que convivem em um lago, em um riacho, em um rio e começam a ficar cada vez menores. Os peixes pequenos têm uma dieta diferente da maioria dos peixes maiores e isso então começa a afetar esses outros organismos que são o alimento dos peixes. Para algumas espécies será melhor e para outra será pior. Mas esse ecossistema muda, não vai funcionar como tem efeito até agora.

RB: O clima tem apenas efeitos negativos ou existem algumas espécies que podem se beneficiar?

MM: Claro, como dissemos, muitas dessas espécies que hoje estavam restringidas pela temperatura vão se expandir. Para essas espécies, é um efeito positivo. Não necessariamente vai ser positivo para todas as outras, mas para essa espécie vai ser melhor. Também uma espécie cujo predador foi embora, entende? O organismo que se alimentava dela não está mais lá porque se extinguiu, estava estressado, sabe? Diferentes efeitos para a espécie que é presa, que é alimento, vai ser melhor, não vai ter quem a coma. Isso é bom para essa espécie. Mas, provavelmente, isso gera um desequilíbrio em todo o ecossistema.

RB: Considerando tudo o que conversamos, quais são os principais mitos e verdades das mudanças climáticas?

MM: Bom, o principal mito é que a mudança climática não existe ou que é totalmente natural. E esse é um mito que foi gerado em ambientes não científicos, que em muitos casos têm motivações econômicas, porque a mudança climática é baseada, a parte humana da mudança climática é baseada nas atividades que nós fazemos. Atividades industriais, principalmente, desmatamento, a perda de florestas e montanhas. Então, reconhecer que o aquecimento climático tem causas humanas implica em fazer algo a respeito. Quando se reconhece um erro, temos que, ou teríamos que reagir gerando uma alternativa, uma solução. Então, negar as mudanças climáticas é a forma de continuar fazendo o mesmo que fizemos até agora e não mudar as coisas. Mas, dentro da comunidade científica tem havido algumas discussões. Porém, atualmente, nenhuma comunidade realmente séria de cientistas que trabalham nessas questões argumenta que não existe mudança climática.

Você pode conhecer mais sobre o trabalho desta incrível pesquisadora em seu perfil na plataforma research gate. Acesse: https://www.researchgate.net/profile/Mariana_Meerhoff

Disponível em: https://youtu.be/UDpfqU7meaY 


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Anielly Oliveira

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Bióloga por paixão, acredito que o conhecimento científico gerado na academia deve buscar meios de encontrar a sociedade. Quanto mais isso for feito, menos políticas errôneas serão adotadas pelos tomadores de decisões.

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