Sobre o conhecimento da biodiversidade


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A pesquisadora mundialmente reconhecida, Brigitte Luis Guillermo Baptiste Ballera, discorre acerca do conhecimento sobre a biodiversidade e denota o caráter emergencial para sua conservação.

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Brigitte Luis Guillermo Baptiste Ballera

emailbrigittebaptiste@humboldt.org.co

Doutora em Economia Ecológica e Manejo de Recursos Naturais pela Universidade de Barcelona – Espanha. Diretora do Instituto de Pesquisas de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt – Colômbia há mais de 18 anos. Autora de 10 livros.



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Tradicionalmente, a integração do conhecimento é dada por meio de dois processos: a agregação gradual de dados que provém da descrição da realidade sob uma única lente conceitual e a construção de novos modelos interpretativos a partir do momento que se alcança certa massa crítica com esses dados, o que pode derivar na confirmação, ajuste ou rejeição de uma teoria. A combinação de ambos os processos, para se mencionar os mais populares, se fez evidente nas propostas de Humboldta, Darwinb ou Wallacec: a perspectiva analítica, e ao mesmo tempo sintética, permitiu “fazer os dados falarem” através de uma reflexão pessoal que durou uma vida toda. A maturação da carreira de um cientista no ocidente está associada a esse tipo de desafio. No ocidente, o talento e a genialidade, o método e a disciplina pessoal tem sido a chave.

Este caminho, no entanto, parece menos claro quando se trata de construir uma visão global sobre o estado e as tendências da biodiversidade, dada a intensidade dos impactos humanos nos seus padrões de distribuição, disponibilidade de habitat e alimento, variabilidade genética e, até mesmo, no comportamento. A transformação massiva de todos os ecossistemas planetários está promovendo uma taxa de extinção de espécies sem precedentes (Fig.1), além da conversão de ambientes silvestres em agroecossistemas ou sistemas urbanos, ou mesmo o aparecimento de comportamentos emocionais – antes não existentes – associativos entre fauna, flora e pessoas. Isto, mencionando apenas alguns dos fenômenos emergentes que enfrentamos.

Extinção

Uma revolução ambiental de escala planetária, que tem os gases da civilização industrial como ingrediente adicional da transformação da atmosfera e dos oceanos, tem levantado o debate do Antropocenod como uma nova era. Debates a respeito do momento que enfrentamos foram feitos por grandes nomes da ciência (e.g. Malthuse, Ehrlichf, Lovelockg, Carsonh, etc., porém, os múltiplos fatores que envolvem tal situação indicam que ela pode ser melhor compreendida por equipes ou grupos especialistas no assunto. Contudo, a inteligência coletiva que surgiu durante o Renascimento parece ser muito lenta e requeremos uma nova forma de entrelaçar as mentes dos pesquisadores, além do que é apresentado nas revistas especializadas...e dos egos individuais.

A consolidação dos Painéis de Mudanças Climáticasi e da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicosj, capazes de captar e organizar produtos integrados do conhecimento, são um começo desta inteligência coletiva que o planeta requer para confrontar o risco de extinção de uma das poucas espécies que sairiam triunfantes, quando se considera os parâmetros de vulnerabilidade dos livros vermelhosk, mas que ainda enfrentarão sérios problemas em horizontes futuros de 100 a 200 anos. Existem dezenas de organizações sociais dedicadas à compreensão conjunta dos fenômenos ecológicos derivados da proliferação humana, e foi a segunda metade do século XX que marcou o nascimento de grandes e pequenas ONGsl ambientalistas, grupos de reflexão e grupos acadêmicos. Entretanto, o exercício colaborativo que começa a emergir neste século só pode significar que, como no passado, a mudança nas condições ambientais está testando as capacidades adaptativas das espécies, a institucionalidade das sociedades humanas e a manifestação multifacetada do DNA da cultura.

"A inteligência coletiva que surgiu durante o Renascimento parece ser muito lenta e requeremos uma nova forma de entrelaçar as mentes dos pesquisadores, além do que é apresentado nas revistas especializadas...e dos egos individuais."

Brigitte Baptiste

O crescimento exponencial de artigos colaborativos, de opiniões e perspectivas interpretativas com mais de uma dúzia de autores, ou as publicações com autores institucionais, denotam um novo tipo de agência para o conhecimento humano, mais próximo do saber compartilhado dos povos aborígenes do que do saber dos ilustres sábios da modernidade. Porém, esta afirmação exige uma exploração mais aprofundada dos mecanismos pelos quais parece estar ocorrendo este movimento global (que não tem nada a ver com a homogeneização forçada do conhecimento em sociedades autoritárias), bem como dos efeitos que estará produzindo nas pesquisas, na sua organização e financiamento, na sua relação com o poder, todos os quais estão além do escopo deste breve texto, mas que não hesitarei em propor como uma tarefa metacrítica dentro da evolução de novas interfaces sociopolíticas que estão sendo produzidas ao redor do planetaa.

"O crescimento exponencial de artigos colaborativos, de opiniões e perspectivas interpretativas (...), denotam um novo tipo de agência para o conhecimento humano, mais próximo do saber compartilhado dos povos aborígenes do que do saber dos ilustres sábios da modernidade."

Brigitte Baptiste

Concluo, aproveitando para relembrar o gênio pós-renascentista que foi Umberto Eco, falecido no ano passado, quando buscava interpretar a aparição e evolução dos padrões da cultura global a partir das suas análises dos meios e a circulação dos seus conteúdos, fazendo evidente que a meta das ciências da biodiversidade, a meu ver, não é acumular mais dados, mas sim entender como estes configuram uma nova dimensão nos ecossistemas mentais e discursivos da sociedade e como neles emergem novos comportamentos, novas leituras, novas narrativas da realidade e propostas de sobrevivência (Fig. 2).

Ecosistemas mentais

Glossário

(a) Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander Freiherr von Humboldt: geógrafo, astrônomo e naturalista alemão. Conhecido como o “Pai da Geografia”.

(b) Charles Robert Darwin: naturalista britânico, famoso por convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução por seleção natural.

(c) Alfred Russel Wallace: naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo galês. Foi o primeiro a estudar a distribuição geográfica das espécies animais; é considerado um dos precursores da ecologia e da biogeografia.

(d) Antropoceno: termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra.

(e) Thomas Robert Malthus: economista britânico. É considerado o pai da demografia por sua teoria para o controle do aumento populacional.

(f) Paul Ehrlich: bacteriologista alemão que ficou famoso pelo seu trabalho em imunologia, hematologia e quimioterapia.

(g) James Ephraim Lovelock: ambientalista britânico que sugeriu a hipótese de Gaia, a qual explica o comportamento sistêmico do planeta Terra. A Terra é vista, nesta teoria, como um superorganismo.

(h) Rachel Louise Carson: bióloga marinha norte americana. Uma das precursoras da consciência ambiental moderna.

(i) Painéis de Mudanças Climáticas: organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU). Seu principal objetivo é sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas que hoje afetam o mundo, especificamente, o aquecimento global.

(j) Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos: plataforma intergovernamental que avalia o estado da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos prestados à sociedade, em resposta aos pedidos dos tomadores de decisão.

(k) Livros vermelhos: livros contendo as descrições das espécies consideradas sob ameaça de extinção.

(l) ONG: Organização não governamental.


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Raffael Tófoli

emailraffael.tofoli@revistabioika.org

Sou biólogo e professor no Instituto Federal Catarinense. Desde a graduação faço pesquisa em Ecologia, área na qual fiz o Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Acredito no poder transformador da educação, da ciência e da divulgação científica!

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

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Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.

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David González

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Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Aleja Vélez Denhez

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Estou interessada no estudo de tecnologias sustentáveis que contribuam na diminuição do impacto ambiental das nossas ações cotidianas. Acredito que compartilhar o conhecimento é um dever do pesquisador, e criar consciência do impacto que as nossas decisões têm sobre a saúde do planeta é um passo necessário para a sua preservação.

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Gustavo H Zaia Alves

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Sou biólogo e professor, formado da graduação ao doutorado, pela Universidade Estadual de Maringá, com período de doutorado sanduíche na University of North Texas (EUA). Acredito em uma educação inclusiva e acessível a todos, e remover as barreiras da academia para que o público tenha acesso às pesquisas relevantes é o ponto de partida!

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Oscar Pelaez

emailopelaez@revistabioika.org

Biólogo, Mestre em Ciências ambientais e Doutor em Ciências. Atua na área de pesquisas em ecologia, com ênfase em ecologia de peixes, diversidade funcional e filogenética.


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