Uma aula sobre invasões biológicas


Neste texto, Sidinei Magela Thomaz dá uma aula completa sobre as invasões biológicas, discorrendo sobre tópicos como as suas causas, seus impactos e estratégias de controle.

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Sidinei Magela Thomaz

emailsmthomaz@nupelia.uem.br

Professor de Ecologia na Universidade Estadual de Maringá. Editor-Chefe Associado da Hydrobiologia e Editor Associado da Biological Invasions, NeoBiota, Perspectives in Ecology and Conservation e Acta Limnologica Brasiliensia. Autor de quatro livros, 27 capítulos de livros e 175 artigos científicos.



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Invasão de pombos, caramujos e leucenas em uma tarde de verão no Brasil

Pombos domésticos dominam as praças, os grandes caramujos africanos invadem quintais e jardins, e árvores de Leucena monopolizam vastas extensões em beiras de rodovias, margens de córregos e paisagens rurais. O que essas espécies têm em comum? 

Todas são espécies exóticas (EEs), isto é, não são nativas do Brasil, e se tornaram invasoras. As espécies se tornam invasoras quando crescem desordenadamente e formam grandes populações que ameaçam as espécies nativas, os ecossistemas e podem causar prejuízos diretos e indiretos para os seres humanos.

As espécies exóticas invasoras causam prejuízos ecológicos, econômicos e sociais

O tema das invasões biológicas tem sido estudado por profissionais de diferentes áreas, principalmente pelo fato de que as espécies exóticas invasoras (EEIs) causam prejuízos ecológicos, econômicos e sociais. De acordo com o último relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Políticas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, publicado pelas Nações Unidas em 2019, as invasões biológicas estão entre as cinco principais causas das mudanças na natureza em nível global, juntamente com mudanças no uso da terra e dos oceanos, exploração direta de organismos, mudanças climáticas e poluição. Estudos envolvendo EEIs têm como principal motivação encontrar formas de controle e erradicação. Porém, esses estudos também possibilitam testar teorias ecológicas que dificilmente seriam testadas de outras formas.

Quando se estuda as invasões biológicas, tenta-se identificar as causas do sucesso de uma ou de várias EEIs e, principalmente, subsidiar medidas de manejo visando reduzir seus impactos. Os estudos das EEIs tentam responder perguntas tais como: de que forma uma determinada EEI chegou a um determinado local? Por que algumas EEs se desenvolvem com tanto sucesso e se tornam invasoras? Quais são os impactos das EEIs? Como reduzi-los? A seguir, vamos sintetizar as respostas para cada uma dessas perguntas.

De que forma uma determinada EEI chegou a um determinado local?

As espécies podem se dispersar para além de suas zonas originais naturalmente. Por exemplo, ventos intensos ou furacões podem dispersar organismos como aves, insetos ou mesmo vegetais para áreas distantes, onde eles não ocorriam antes. Porém, atualmente o fenômeno das invasões biológicas é intensificado pela ação humana. 

O aumento do comércio entre nações tem sido um grande acelerador das introduções de espécies na era moderna. Muitos organismos (ou seus propágulos, como sementes, ovos, ou outras estruturas com potencial de disseminação do organismo) são transportados na água de lastro dos navios ou mesmo no interior de seus containers, o mesmo ocorrendo com as cargas transportadas por aviões. A aquariofilia também contribui para a dispersão de espécies aquáticas. Adicionalmente, muitas espécies são introduzidas intencionalmente, com a finalidade de serem usadas em atividades econômicas, mas acabam fugindo ao controle e se transformando em EEIs. Exemplos desse último tipo de introdução incluem algumas espécies de Pinus (pinheiros), que se tornaram pragas em várias partes do sul do Brasil, e o javali, que vem provocando prejuízos para espécies nativas e para a agricultura brasileira.

O aumento do comércio entre nações tem sido o grande catalisador das introduções de espécies na era moderna.

Em razão desses (e outros) vetores, há vários estudos que demonstram que o número de EEIs continua aumentando em todos os continentes. Também como resultado das ações humanas, as introduções de EEs na era atual são muito superiores às registradas em eras passadas.

Por que algumas EEs se desenvolvem com tanto sucesso e se tornam invasoras?

Antes de responder essa questão, é importante ressaltar que nem todas as EEs introduzidas conseguem se instalar e se expandir em uma nova área. Pelo contrário, poucas EEs conseguem se estabelecer e, entre as que se estabelecem, um número ainda menor consegue produzir grandes populações e causar prejuízos. A falha (ou o sucesso) de uma EE pode ser explicada por vários mecanismos.

Primeiramente, o sucesso de uma invasão pode estar relacionado com a “pressão de propágulos”, que representa o número de organismos ou de seus propágulos (como sementes, fragmentos de plantas, animais etc.) que alcançam uma região. Quanto maior for o esforço de introdução (número de propágulos), maior será a chance de que a espécie alcance sucesso. Se a pressão de propágulos for muito intensa, uma EE pode se estabelecer mesmo onde as condições ambientais são pouco favoráveis. Como diz o ditado popular, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

Mesmo que a pressão de propágulos seja alta, as EEs podem não se estabelecer sob certas condições físicas e químicas. No Brasil, o tucunaré é um peixe originário da bacia amazônica, mas foi introduzido em outras regiões do país objetivando a pesca esportiva. Esse peixe não alcança sucesso em águas túrbidas, pois ele necessita de águas claras para visualizar e capturar suas presas. O aguapé (planta aquática flutuante), nativo do Brasil, mas invasor nos demais continentes, proporciona um bom exemplo de plantas invasoras. Essa planta cresce pouco em águas pobres em nutrientes. Assim, pode-se concluir que águas túrbidas e águas pobres em nutrientes atuam como filtros ambientais que reduzem a chance de invasão pelo tucunaré e pelo aguapé, respectivamente.

O aguapé

O sucesso de uma invasão também pode ser explicado por filtros biológicos, representados pelas interações negativas com as espécies nativas. Por exemplo, quando uma EE chega a um novo ambiente e se depara com muitas espécies nativas já estabelecidas, a competição com essas últimas pode resultar em crescimento mais lento da EE, o que reduz sua chance de sucesso. Outras interações negativas como o parasitismo e a herbivoria por espécies nativas também ajudam a reduzir o sucesso de EEs.

Interações positivas, por outro lado, também existem na natureza. Assim, a ocorrência de interações positivas entre espécies nativas e EEIs, ou mesmo entre duas ou mais EEIs, podem aumentar a chance de uma espécie alcançar sucesso, elevando seus impactos.

Os fatores abióticos e bióticos não agem isoladamente, mas atuam em conjunto e interagem com a pressão de propágulos, descrita no início dessa sessão. Além disso, as EEs podem sofrer mutações favoráveis ou entrar em contato com outras espécies facilitadoras após longos períodos, o que explica porque algumas EEs só começam a se expandir e causar impactos após décadas ou até mesmo séculos desde sua introdução. Por essas razões, é muito difícil prever se uma determinada EE será ou não uma invasora de sucesso e quais impactos ela causará.

Quais são os impactos das EEIs? Como reduzi-los?

As EEIs em geral causam vários tipos de impacto. Há estudos meta-analíticos (isto é, estudos que resumem dezenas ou centenas de investigações independentes), demonstrando que, em média, os impactos de espécies exóticas superam o de espécies nativas. Assim, mesmo que algumas espécies exóticas não causem prejuízos visíveis, não é correto usar esse argumento para justificar a introdução de EEs. Pelo contrário, nessa área é sempre “melhor prevenir do que remediar.”

As especies exóticas invasoras podem causar a redução de populações de espécies nativas através da predação, competição ou contaminação

Os prejuízos ecológicos das EEIs já foram medidos em vários níveis de organização, desde o molecular, quando a genética de espécies nativas é alterada, até ecossistemas inteiros. Por exemplo, EEIs podem causar a redução de populações de espécies nativas através da predação, competição ou contaminação (no caso de microrganismos que causam doenças). Em casos extremos, espécies nativas podem ser extintas localmente ou mesmo globalmente, caso ocorram em áreas restritas. Um exemplo desse último caso é o que ocorreu na ilha de Guam (Ásia), onde a invasão por uma espécie de cobra dizimou as espécies de aves nativas. Pelo fato de não compartilharem uma história evolutiva com cobras, as aves não possuíam mecanismos de defesa. Assim, como essas aves só existiam nessa ilha, seu desaparecimento representou uma extinção global. Os prejuízos ecológicos podem se estender para ecossistemas inteiros. Córregos da região sul e sudeste do Brasil, invadidos pela braquiária africana (um tipo de capim), por exemplo, perdem grandes áreas marginais em função do assoreamento causado por essas plantas. Como consequência, o uso da água torna-se comprometido e há redução significativa da biodiversidade aquática.

Os impactos econômicos causados por invasões biológicas são gigantescos. A pesquisa do Dr. David Pimentel e colaboradores (1), envolvendo seis nações (inclusive o Brasil), indica prejuízos na casa de centenas de bilhões de dólares por ano. Esses prejuízos são resultantes das pragas agrícolas e da perda de serviços ambientais dos ecossistemas invadidos, entre outros fatores. Um exemplo recente peculiar refere-se aos prejuízos milionários de companhias hidrelétricas brasileiras decorrentes do entupimento de sistemas de refrigeração pelo mexilhão dourado, nativo da Ásia. Esse molusco aquático foi introduzido acidentalmente nos anos 1990 em nosso país por intermédio da água de lastro de navios, a partir da Argentina.

Mexilhões dourados

Impactos das EEIs sobre a saúde humana também são preocupantes. Há dois casos emblemáticos que chamam a atenção no Brasil. Trata-se da dengue (causada por um vírus de origem asiática) e da zika (causada por um vírus africano) que são transmitidas pelo Aedes aegypti (um mosquito de origem africana). Essas espécies foram introduzidas de outros continentes, mas juntas estão causando efeitos desastrosos à população brasileira. 

A erradicação de EEIs pode ser realizada através de várias técnicas, que incluem a caça, uso de biocidas (substâncias que possuem ação letal sobre determinados organismos), liberação de inimigos naturais (muitas vezes introduzidos a partir da região de origem da EEI), remoção manual e, mais recentemente, a engenharia genética. No entanto, essas técnicas são caras e têm alcance limitado. Quando muito, conseguem manter o controle das populações de EEIs localmente. A erradicação total de uma EEI geralmente alcança sucesso somente em pequenas ilhas ou quando a EEI é detectada logo no início do processo de invasão e sua população ainda é reduzida.

Em razão dos inúmeros impactos e da dificuldade em se controlar ou erradicar EEIs, a melhor estratégia é evitar as introduções. Vários países possuem legislação rígida e controle das fronteiras, que reduzem as chances de novas introduções. Em nosso país, necessita-se modernizar a legislação e investir em estudos que compreendam as invasões biológicas e subsidiem as medidas de manejo. Finalmente, essas medidas precisam ser complementadas com a educação científica, informando a sociedade sobre o perigo das invasões. Assim, a redução do risco e dos impactos das introduções de espécies depende de esforços coletivos envolvendo a conscientização e educação científica, aliados à legislação e fiscalização eficientes. 

Referências

  1. David Pimentel et al. 2001. Economic and environmental threats of alien plant, animal, and microbe invasions. Agricul-ture, Ecosystems and Environment 84, 1-20.


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Raffael Tófoli

emailraffael.tofoli@revistabioika.org

Sou biólogo e professor no Instituto Federal Catarinense. Desde a graduação faço pesquisa em Ecologia, área na qual fiz o Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Acredito no poder transformador da educação, da ciência e da divulgação científica!

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Aleja Vélez Denhez

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Estou interessada no estudo de tecnologias sustentáveis que contribuam na diminuição do impacto ambiental das nossas ações cotidianas. Acredito que compartilhar o conhecimento é um dever do pesquisador, e criar consciência do impacto que as nossas decisões têm sobre a saúde do planeta é um passo necessário para a sua preservação.

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Alfonso Pineda

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Sou biólogo colombiano morando no Brasil. Acredito que qualquer uma das áreas do conhecimento pode contribuir para a melhoria da vida dos demais, e que a educação é uma ferramenta poderosa. Além disso, acredito que o acesso a informação permite às pessoas maior protagonismo social.

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Taise Miranda Lopes

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Sou bióloga e doutora em ciências ambientais pela Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que o acesso ao conhecimento, seja através de políticas públicas e divulgação científica, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais empática, justa e sustentável.


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