Conservando a biodiversidade para o futuro: orientações para um mundo em transição

A gestão ambiental participativa oferece novas alternativas na preparação para os efeitos das mudanças climáticas.

Foto Claudia
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Claudia Múnera Roldán

emailclaudia.munera@anu.edu.au

Bióloga da Universidade Nacional da Colômbia, Mestre em Patrimônio Mundial e Projetos Culturais para o Desenvolvimento, através da Universidade de Turin, Itália, em parceria com Politécnico de Torino e ITCILO. Tem experiência em projetos de desenvolvimento sustentável, conservação, manejo e gestão de projetos, adaptação às mudanças climáticas, áreas protegidas, patrimônio biocultural e comunidades locais na Colômbia, América Central, Austrália e África do Sul. Doutoranda em Adaptações às mudanças climáticas na Universidade Nacional da Austrália (ANU), Camberra, Austrália. Amante das aves, de fazer chocolate e o yoga.



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Nevado del Ruíz, Colombia

Como podemos conservar uma região de campos, ou um ecossistema de neve, se as geleiras não estão mais lá, e o ecossistema está profundamente modificado? Como proteger os rios e os benefícios que eles oferecem, se os ciclos hidrológicos e outros fatores foram modificados alterando a funcionalidade do ecossistema? Como podemos nos planejar para proteger espécies ameaçadas quando a floresta da qual elas dependem é transformada em outro ecossistema? 

Parque de los Nevados

A conservação tem se preocupado com a preservação, manutenção e restauração de elementos da biodiversidade, com o fornecimento de serviços ecossistêmicos e com valores paisagísticos ou culturais. No entanto, o elevado grau de incerteza associado às mudanças climáticas, juntamente com outros fatores de mudanças globais (como o desmatamento ou extração ilícita de recursos naturais), traz cenários ecologicamente alterados, que possivelmente não seremos capazes de os preservar, mantêr ou ainda restaurar à estados existentes ou anteriores. Isso tem profundas implicações que nos obriga a repensar a eficácia das estratégias atuais de conservação e governança1, 7.   

Neste mundo em transformação, onde os sistemas ecológicos estão sob pressão, as abordagens tradicionais para a conservação da biodiversidade enfrentam desafios fundamentais. Então, como podemos nos preparar para lidar com essas mudanças? Para responder esta pergunta, entre 2016 e 2018, um grupo de pesquisadores, profissionais da área da conservação de áreas protegidas, formuladores de políticas públicas e, em alguns casos, membros da comunidade local de áreas protegidas da Colômbia, se reuniram para repensar os modelos de gestão da conservação e governança, identificar barreiras e traçar um possível caminho para trabalhar no futuro. Desta iniciativa surgiu o projeto “Futuros de conservação”.

Pântano de Zapatosa

Projeto “Futuros da Conservação”

Este projeto interdisciplinar implementado na Colômbia com o objetivo de repensar a conservação da biodiversidade no contexto das mudanças climática (mais detalhes em van Kerkhoff et al., 2018). 

O projeto enfatizou que a adaptação às mudanças climáticas não ocorre apenas sobre os aspectos técnico-científicos da mudança climática, mas também sobre como tomamos boas decisões para gerenciar mudanças na paisagem sem fechar as portas para diferentes cenários. 

Esse "repensar" deriva do estabelecimento de objetivos de alto nível, como a manutenção de um sistema de áreas protegidas representativas em nível nacional, até as ações em escalas menores, como o manejo nas áreas protegidas, exemplificado na forma de um planejamento para garantir a provisão de recursos hídricos para as comunidades em um parque nacional.

Mapa dos parques do sistema PNN Colômbia

Durante o processo, foi proposta uma série de atividades interativas baseadas em diálogos, que encorajam os profissionais de conservação a antecipar a transformação dos ecossistemas e explorar abordagens de gestão alternativas. Este processo pode ser modificado ou adaptado dependendo das necessidades. Em suma, as atividades incluíram:

Avaliação dos benefícios das áreas protegidas, juntamente com os atores relevantes (membros da comunidade, gestores das áreas protegidas, empresas privadas, dentre outros), para compreender a maneira pela qual a comunidade e os diferentes atores estão relacionados à área em questão;
Síntese e compilação de informações sobre possíveis transformações ecológicas com base nas atuais projeções climáticas e informações disponíveis, com o intuito de ajudar a entender os possíveis efeitos associados à variabilidade climática;
Documentação de decisões governamentais para entender como a ciência interage com a política pública, bem como identificar barreiras que impedem a integração das diferentes formas de conhecimento na toma de decisões. Da mesma forma, a revisão de lições aprendidas de anteriores projetos em mudanças climáticas.
Identificação das opções da gestão institucional e decisões governamentais para os funcionários responsáveis pela gestão das áreas protegidas com o objetivo de repensar a eficácia das estratégias de gestão atuais e identificar ações imediatas que podem ser realizadas em preparação para diferentes cenários futuros.

O objetivo deste processo é facilitar uma mudança na forma como pensamos, planejamos e tomamos decisões, considerando os impactos das mudanças climáticas nas áreas protegidas. Conceitualmente, o processo se baseia especificamente na estrutura de valores, regras e conhecimentos (VRC)3 e na compreensão das opções de adaptação1 em torno dos processos de tomada de decisão que os planejadores e gerentes de áreas protegidas deverão empreender em colaboração com outras partes interessadas. 

Oficina Diálogos do futuro

Elementos de transições para uma conservação orientada para o futuro

A conservação orientada para o futuro ocorre quando as políticas públicas, o planejamento e o gerenciamento antecipam a transformação ecológica e se preparam proativamente a longo prazo. Mudar a forma como entendemos a adaptação e mudar os sistemas de políticas públicas que apoiam essas estratégias, nem sempre é fácil. No entanto, o processo pode começar com pequenos passos ou transições para uma gestão de áreas protegidas e conservação da biodiversidade mais eficazes em cenários de mudanças climáticas6:

1. Atualizar as estratégias de gestão das áreas protegidas para passar da mudança ecológica às práticas que aceitam e antecipam mudanças: embora, por definição, a conservação tente resistir à mudança, é importante entender que os processos de transformação ecológica associados à mudança estão ocorrendo e, em alguns casos, podem ser inevitáveis2. Por exemplo, se por efeito das mudanças climáticas as geleiras desaparecem de uma área protegida, a área deve ser gerenciada de uma maneira diferente e pode ser melhor pensar sobre o que isso significa para a sociedade que circunda a área antes que isso aconteça. Antecipar e ajustar as mudanças ecológicas implica não somente em etapas práticas (por exemplo, mudança ou adaptação de estratégias ou planos de manejo), mas também em mudar nossos modelos conceituais e a maneira pela qual percebemos o futuro da biodiversidade.

Diagrama metodologia oficinas

2. Estratégias que se concentram na preservação dos valores e benefícios derivados de áreas protegidas (funcionamento ecológico), não apenas na conservação de atributos ecológicos específicos: é comum os planos de manejo de áreas protegidas focarem em estratégias de adaptação para a conservação de espécies ou ecossistemas5, deixando de lado outras prioridades. Mas, se uma ou duas espécies desaparecem, isso significa que a área protegida perdeu seus valores? O que acontece com os outros serviços e benefícios que a área oferece à sociedade? Se as estratégias de adaptação em conservação incluem valores sociais e benefícios das áreas protegidas para a sociedade, é possível abrir novas opções de manejo que permitam manter esses valores, não só atributos ecológicos.  

3. Compreender que a adaptação às mudanças climáticas não serve apenas para aspectos técnico-científicos do clima, mas também aspectos de políticas públicas: compilar, analisar e integrar as informações científicas relacionadas às mudanças climáticas na tomada de decisão é uma estratégia válida e importante. No entanto, com a elevada incerteza associada com as projeções de mudanças climáticas, essa abordagem pode não ser sempre apropriada e também corremos o risco de nos concentrarmos em ter provas para resistir à mudança, deixando de lado outras prioridades ou prazos. Ter a mentalidade certa para gerir a informação necessária para as tomadas de decisões durante os períodos de mudança rápida é importante para ampliar as opções de gestão. Integrar outros atores e outras formas de conhecimento em gestão pode ser muito útil nas tomadas de decisões e pode ajudar a entender como o clima afeta a gestão dos recursos naturais4.

4. Abandonar uma abordagem "reativa" para resolver os problemas imediatamente, passando para práticas que enfatizam a aprendizagem ativa em que se pensa em direção ao futuro (abordagem proativa): o foco na aprendizagem ajuda a compreender e melhorar a capacidade dos atores responsáveis pela gestão de áreas protegidas, objetivando melhorar o conhecimento e a capacidade de resolver problemas. Desta forma, podemos aprender a enfrentar as futuras incertezas e tomar decisões, apesar de não estarmos certos das implicações dessas decisões. Isso requer abordagens colaborativas com vários atores, identificando o que é importante para todas as partes, além dos valores centrais de áreas protegidas, como a conservação da natureza para gerar o apoio local necessário para a adaptação e as mudanças necessárias na gestão.

É importante entender que alguns agentes de conservação já podem estar em algum ponto dessas transições. Por exemplo, na Colômbia os agentes responsáveis pelo manejo de áreas protegidas estão em fase avançada na transição 4 (aprendizagem) e encaminhando-se para uma transição 1 (acomodar alterações na gestão)6.

Reuniones comunitárias

Próximos passos de “Futuros da conservação”

O projeto lançou as bases para ajudar os gerentes de áreas protegidas a enfrentar as mudanças climáticas de uma maneira positiva e com uma visão otimista para o futuro. Estar mentalmente preparado para a mudança ecológica permite que os gerentes de áreas protegidas encontrem oportunidades de integrar as mudanças climáticas em seu planejamento e gerenciamento, para que estejam preparados na prática. Esse processo pode ajudar a desenvolver a capacidade e o pensamento estratégico, reconhecendo as múltiplas oportunidades de aprendizado que os atores têm diariamente.

Antecipar as mudanças climáticas e sua transformação ecológica associada farão parte da tomada de decisões para os gestores de áreas protegidas, independentemente de estarem preparados para essa situação. O “Futuros de Conservação” pode ajudar a se preparar para os desafios que virão, de forma proativa e positiva, conectando as múltiplas dimensões do conhecimento e os benefícios que a biodiversidade nos oferece, em conjunto com as novas estratégias de gestão.

Parque Natural Chicaque

Referências

  1. Colloff, M. J., Lavorel, S., Van Kerkhoff, L. E., Wyborn, C. A., Fazey, I., Gorddard, R., Mace, G. M., Foden, W. B., Dunlop, M., Prentice, I. C., Crowley, J., Leadley, P. & Degeorges, P. (2017). Transforming conservation science and practice for a postnormal world. Conservation Biology, 31, 1008-1017.
  2. Dunlop, M., Parris, H., Ryan, P. y Kroon, F. J. (2013). Climate-ready conservation objectives: A scoping study. National Climate Change Adaptation Research Facility. Gold Coast, Australia: CSIRO.
  3. Gorddard, R., Colloff, M. J., Wise, R. M., Wareb, D. y Dunlop, M. (2016). Values, rules and knowledge: Adaptation as change in the decision context. Environmental Science & Policy, 57, 60-69.
  4. Múnera, C. y Van Kerkhoff, L. (2019). Diversifying knowledge governance for climate adaptation in protected areas in Colombia. Environmental Science & Policy, 94, 39-48.
  5. Stein, B. A., Staudt, A., Cross, M. S., Dubois, N. S., Enquist, C., Griffis, R., Hansen, L. J., Hellmann, J. J., Lawler, J. J., Nelson, E. J. y Pairis, A. (2013). Preparing for and managing change: climate adaptation for biodiversity and ecosystems. Frontiers in Ecology and the Environment, 11, 502-510.
  6. Van Kerkhoff, L., Múnera, C., Dudley, N., Guevara, U., Wyborn, C., Figueroa, C., Dunlop, M., Hoyos, M. A., Castiblanco, J. & Becerra, L. (2018). Towards future-oriented conservation: Managing protected areas in an era of climate change. Ambio. https://doi.org/10.1007/s13280-018-1121-0
  7. Wyborn, C., Van Kerkhoff, L., Dunlop, M., Dudley, N. y Guevara, O. (2016). Future oriented conservation: knowledge governance, uncertainty and learning. Biodiversity and Conservation, 25, 1401-1408.

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