Você é o que você come, mas o que dizer sobre os sapos de serrapilheira?


As rãs de serrapilheira são um dos muitos organismos cujo habitat é um substrato composto por restos de plantas e acúmulo de material orgânico vivo em diferentes estágios de decomposição. Mas, vivendo no meio de tantos nutrientes qual será o alimento preferido por estes organismos?

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    Júnior Nadaline

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    Bacharel em Ciências Biológicas- Universidade Federal do Paraná (2018). Atualmente aluno de mestrado pelo programa de pós-graduação em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná.

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    Marcio Pie

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    Biólogo e Doutor em Ecologia, Comportamento e Evolução pela Boston University. Atualmente é professor associado ao departamento de Zoologia na Universidade Federal do Paraná, onde desenvolve pesquisa sobre os mecanismos que geram e mantém a biodiversidade, integrando ferramentas conceituais e metodológicas da macroecologia, macroevolução, sistemática molecular e modelagem matemática.



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Caminho de serapilheira na floresta nublada

Quando adentramos florestas tropicais ou subtropicais, é comum encontrarmos um universo com diversos tipos de invertebrados e até pequenos vertebrados vivendo entre as folhas e detritos (restos de qualquer material) caídos. Essa porção do solo é conhecida como serrapilheira e é o palco das mais variadas interações entre as espécies. Em especial, é onde muitas espécies de rãs terrestres buscam seu alimento.

As espécies de rãs que vivem nesse ambiente são conhecidas como rãs de serrapilheira e apresentam a maior parte do seu ciclo de vida em ambiente terrestre. As rãs de serrapilheira apresentam diferentes formas, tamanhos, comportamentos e cores. Assim, podemos nos perguntar se essa enorme variação poderia apresentar algum padrão geral. Por exemplo, está relacionado ao habito alimentar dessas espécies?

Nesse sentido, sabemos que muitas espécies de rãs que são chamativas e tóxicas têm a sua toxicidade proveniente de seu alimento, sendo esta uma intrigante estratégia anti-predação conhecida como aposematismo.

Nos últimos 40 anos, pensávamos que a variação alimentar em rãs de serrapilheira tinha um padrão geral, no qual teríamos um contínuo entre espécies especializadas em comer formigas e ácaros, passando por espécies com um hábito alimentar variado como as generalistas, até finalmente chegar em espécies que evitam comer formigas e ácaros. Além disso, esse padrão seria relacionado a estratégia de busca de alimento, mecanismos de defesa e forma do corpo. Ou seja, as espécies especialistas em formigas tenderiam a ter bocas estreitas, ser venenosas e buscar ativamente seu alimento, enquanto que as espécies que evitam comer formigas e ácaros seriam espécies camufladas, com bocas largas e tenderiam a esperar a aparição de uma presa. Já as espécies generalistas tenderiam a ter características intermediárias entre os esses dois grupos. Nesse aspecto, acreditava-se também que, conforme as espécies fossem maiores, a proporção de formigas e ácaros em sua dieta seria cada vez menor.

Rã Rhinella alata

Desde a postulação do padrão geral na variação da dieta em rãs de serrapilheira, ocorreram muitas descrições alimentares de diferentes espécies e até mesmo a descoberta de inúmeras espécies, mas até então esse padrão não tinha sido reavaliado nas rãs. Diante disso, nesse estudo nós propusemos testar a hipótese de que a variação de tamanho das rãs está relacionada à preferência por formigas e ácaros. Também investigamos quais são os principais padrões de variação na dieta de rãs de serrapilheira e qual a importância dos itens alimentares mais comuns na variação de tamanho dessas rãs.

Para responder essas perguntas, analisamos a dieta e tamanho corporal de 120 diferentes espécies de rãs de serrapilheira e observamos que, indo contra ao conhecimento popular, as moscas e mosquitos não são os itens mais comuns na dieta desses animais.

Formiga-verde (Oecophylla smaragdina) em Mulu NP, Sarawak, Malásia

Por outro lado, as formigas foram o item mais representativo na dieta das rãs analisadas. Além disso, besouros, ácaros e cupins também apresentaram relativa importância dentro da dieta. Quando analisamos as tendências na variação alimentar, observamos que nem sempre as rãs consomem formigas e ácaros ao mesmo tempo, como postulado anteriormente. Na verdade, estes itens podem apresentar uma relação de exclusão ou independência entre si. Por outro lado, não encontramos relação entre o tamanho corporal das espécies de rãs e a proporção de formigas em sua dieta. Apesar de formigas serem importantes alimentos para esses animais, seu consumo é independente de seu tamanho.

Além disso, observamos que cupins tendem a ser mais comuns na alimentação de rãs de tamanho intermediário, e foram itens raros nas espécies de pequeno e grande porte. Em especial, encontramos uma relação negativa entre a proporção de ácaros na dieta e o tamanho das espécies, ou seja, as espécies de rãs maiores comem menos ácaros.

Infográfico: O que comem os sapos da serapilheira?

Já entre as espécies de menor porte, existem aquelas que comem muitos ácaros e outras que não os comem. Sendo assim, o tamanho corporal das rãs de serrapilheira apresenta um papel limitado ao explicar a variação alimentar das rãs. Existem hipóteses específicas para alguns grupos de rãs, como a associação entre absorção de substâncias tóxicas provenientes de formigas e ácaros em espécies aposemáticas, contudo, com os nossos resultados não foi possível a extrapolação direta para os demais grupos. Esse cenário indica que a evolução da dieta de rãs de serrapilheira é mais complexa e variável do que conhecíamos, na qual a forma de busca por alimento ou parentesco não são suficientes para explicar padrões gerais na dieta dessas espécies.

Artigo original disponível em: https://brill.com/view/journals/amre/40/4/article-p537_12.xml?language=en

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

emailmirtha.angulo@revistabioika.org

Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.

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Alexandrina Pujals

emailale.pujals@revistabioika.org

Bióloga, especialista em Planejamento Ambiental, Gestão dos Recursos Naturais e Mestre em Ciências Ambientais. Acredito que o conhecimento científico tem valor maior quando compartilhado e popularizado. A divulgação torna esse conhecimento acessível ao público, alinhando argumentos e ideias que busquem a conservação do meio ambiente.

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Ángela Gutiérrez C

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De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Carolina Gutiérrez Cortés

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Sou microbióloga e trabalho com a geração de novas alternativas para o processamento saudável de alimentos mediante o uso de aditivos naturais. Espero poder compartilhar este conhecimento e aproveitar as experiências de outras pessoas. Por isso, acredito no desafio de comunicar com uma linguagem simples tudo o que é produzido na academia.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Rafael Franco Ferreira

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Físico e estudante de doutorado em Física da Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Como entusiasta das ciências e da filosofia, acredito que o conhecimento transforma o indivíduo e sua cultura. Penso que a socialização das ciências ajuda a criar uma sociedade mais crítica, justa e independente de seus governantes.

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Rafaela Granzotti

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Sou bióloga e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás. Acredito que em um mundo globalizado e informatizado como o nosso, informação de qualidade é essencial para que as pessoas tomem decisões e assim sejam agentes de mudança para um mundo mais sustentável.


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