Insetageddon!! Provavelmente não


Nos últimos anos, estudos têm demonstrado que, devido à degradação dos habitats e às mudanças climáticas, a biomassa dos insetos tem reduzido globalmente. No entanto, o estudo de Van Klink e colaboradores demonstrou que pode haver alguns contrastes nestes padrões, quando os insetos aquáticos e terrestres são avaliados separadamente.

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Oscar Pelaez

emailopelaez@revistabioika.org

Biólogo, Mestre em Ciências ambientais e Doutor em Ciências. Atua na área de pesquisas em ecologia, com ênfase em ecologia de peixes, diversidade funcional e filogenética.



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Caixa entomológica de besouros

Quem, de chinelo na mão, nunca lutou uma batalha até a morte com uma enorme barata entrincheirada ali na parede, em um canto perto do teto. Não seriamos tão ousados se, antes desse confronto, soubéssemos que a evolução tem feito com que as baratas consigam correr a uma velocidade quatro vezes maior que a de um guepardo (o felino mais rápido), voar ou suportar tão bem os golpes. Quem está lendo isso é porque saiu triunfante dessas batalhas, mas no final as baratas vão prevalecer. E, embora tenham sido batalhas marcantes no caso das baratas, a relação entre humanos e insetos depende de como esses organismos nos afetam. Enquanto alguns são pragas a serem exterminadas ou temidas, outros insetos são usados como alimento ou desempenham um papel importante nos ritos de passagem. É bastante famoso o ritual da Tocandira, onde os filhos do povo Sateré-Mawé da Amazônia se tornam homens ao se submeter às dolorosas picadas de uma das formigas mais venenosas do mundo. Os insetos estão, portanto, presentes em nosso dia-a-dia. Tanto é assim que dependemos de suas funções como polinizadores e decompositores, para tornar os solos férteis e produzir os alimentos que comemos1,2.

Dada a sua importância, e assim nossa relação com os insetos seja dominada pelo medo ou indiferença, temos que nos preocupar com o que acontece com eles em um cenário de perda de espécies. Nos últimos anos, alguns estudos têm demonstrado que, devido à deterioração dos habitats e às mudanças climáticas, até 75% da biomassa dos insetos se perdeu em algumas partes da Europa3. Em uma região sem grandes impactos antrópicos em Porto Rico, verificou-se que a cada ano as populações de artrópodes (insetos e outros invertebrados) perderam 6% de seus indivíduos. E, aparentemente, essas perdas estão relacionadas às mudanças climáticas, possivelmente desencadeando a redução da abundância de espécies que se alimentam de insetos (pássaros, anfíbios)4. Dados esses resultados, alguns meios de comunicação cunharam termos como "Apocalipse dos insetos" ou "Insetageddon"

Abelha coletando pólen em uma flor branca.

O que Roel Van Klink e seus colaboradores do iDiv na Alemanha (German Centre for Integrative Biodiversity Research) nos mostram, é que dentro desses padrões de diminuição da abundância de insetos há contrastes5. Os autores aproveitaram os dados compilados por outros cientistas em 166 estudos independentes. O resultado foi um banco de dados com o número de insetos em 1676 locais em todos os continentes. Van Klink e sua equipe analisaram se a abundância das populações de insetos mudou com o tempo. O objetivo era investigar se as populações de insetos estavam aumentando ou diminuindo. Como também era importante descobrir os fatores que determinam as mudanças na abundância, foram feitas quatro perguntas principais: 1) se os insetos aquáticos e terrestres apresentam os mesmos padrões de abundância; 2) se áreas menos preservadas apresentam alterações mais fortes; 3) se as mudanças no uso da terra (plantações) afetam a abundância de insetos e 4) se as mudanças na abundância de insetos estão relacionadas às mudanças climáticas.

Mulher no mercado de Phuket, Tailândia

O estudo revelou que a abundância de insetos terrestres e aquáticos está se comportando de forma diferente ao longo do tempo. Enquanto os insetos terrestres estão diminuindo em uma taxa de 9,81% da abundância em uma década, os insetos aquáticos aumentaram sua abundância em 11,33% a cada década. Observou-se também que nas áreas mais preservadas, a abundância também diminuiu, mas com menos intensidade. Um resultado interessante é que os insetos aquáticos aumentaram nas áreas de cultivo. Este último, eles explicam, pode estar relacionado à adoção de técnicas de produção mais limpa e à alta estabilidade das safras ao longo do tempo. 

Insetos como alimento em Chinatown City Mart

A importância e a polêmica residem no fato de que, embora esses resultados também mostrem uma redução na abundância de insetos terrestres, ela é muito menor do que a encontrada em outros estudos (redução de 0,92% vs 3 a 6% ao ano). Os autores, no entanto, esclarecem que estão cientes de que o banco de dados utilizado pode apresentar algumas limitações: grande variação em nível local e poucos estudos em regiões que podem ser altamente impactadas na América do Sul e África. Embora suas descobertas mostrem que os insetos terrestres estão sendo perdidos cerca de 6 vezes menos rapidamente do que estudos anteriores mostraram, eles enfatizam que a tendência ainda é muito preocupante. Por fim, destacam que o aumento da abundância de insetos nos ambientes aquáticos pode ser atribuído ao impacto das estratégias de manejo. Isso demonstraria que medidas de proteção bem planejadas podem ser eficazes na prevenção do declínio das populações de insetos.  

 

Referências

  1. Rader, R. et al. Non-bee insects are important contributors to global crop pollination. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A. 113, 146–151 (2016).
  2. ULYSHEN, M. D. Insect-mediated nitrogen dynamics in decomposing wood. Ecol. Entomol. 40, 97–112 (2015).
  3. Hallmann, C. A. et al. More than 75 percent decline over 27 years in total flying insect biomass in protected areas. PLoS One 12, e0185809 (2017).
  4. Lister, B. C. & Garcia, A. Climate-driven declines in arthropod abundance restructure a rainforest food web. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A. 115, E10397–E10406 (2018).
  5. van Klink, R. et al. Meta-analysis reveals declines in terrestrial but increases in freshwater insect abundances. Science (80-. ). 368, 417–420 (2020).

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Taise Miranda Lopes

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Sou bióloga e doutora em ciências ambientais pela Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que o acesso ao conhecimento, seja através de políticas públicas e divulgação científica, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais empática, justa e sustentável.

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David González

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Isabela Machado

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Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

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Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.


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