Nem só de tilápia vive o homem: um peixe exótico invade as águas e a mesa dos brasileiros


Num dos países com mais diversidade de peixes do mundo o peixe mais consumido não é nativo. Quais são os impactos dessa estratégia?

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    Larissa Faria

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    Bióloga e mestre em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente é doutoranda em Ecologia e Conservação também pela UFPR, e desenvolve sua pesquisa no Laboratório de Ecologia e Conservação.

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    Thiago V. T. Occhi

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    Biólogo, mestre em Ecologia e Conservação e doutorando em Ecologia em Conservação no Programa de pós-graduação em Ecologia e Conservação – PPGECO – UFPR. Atua principalmente com invasões biológicas e seus efeitos na biodiversidade.

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    Patricia Charvet

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    Especialista em biologia, historia natural e conservação de raias. Representante regional da América do Sul no Shark Specialist Group (IUCN SSG)

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    Jean R. S. Vitule

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Nem só de tilápia vive o homem: um peixe exótico invade as águas e a mesa dos brasileiros

Não é de hoje que o governo brasileiro quer que compremos a ideia da aquicultura de espécies exóticas. Desde 2003, com a criação da Secretaria Especial de Pesca e Aquicultura, a pauta do cultivo de peixes no país foi tomando cada vez mais força à medida que os estoques pesqueiros foram diminuindo.

Recentemente a discussão voltou à tona. O atual Presidente da República e o Secretário de Aquicultura e Pesca alegaram que o Brasil precisa explorar o “mar de água doce” de Itaipu para cultivar tilápia2. A isso se soma a suposta “desburocratização” do processo de cessão de águas da União para aquicultura3.

É fato que a aquicultura pode ser uma ótima alternativa de produção de proteína animal, por isso vem crescendo rapidamente no Brasil e no mundo nos últimos anos4. Contudo, da maneira como é feita em nosso país, essa prática está longe de ser sustentável5. Isso principalmente porque  é dependente de espécies exóticas, ou seja, nativas de outras bacias hidrográficas, países ou continentes6.

O caso mais conhecido, claro, é o da tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus),  a espécie mais cultivada e consumida no Brasil atualmente7. Como o próprio nome diz,  é um peixe natural da bacia do rio Nilo, no continente africano,  portanto, exótica em toda a América.

Produção da aquicultura

É claro que há um motivo para a tilápia ser tão popular para a aquicultura. Ela é altamente resistente às alterações ambientais, cresce e se reproduz rapidamente e, por isso, acaba sendo ideal para o cultivo intensivo: grande quantidade de peixes em pouco espaço. O problema é que essas características são precisamente  as  que a tornam uma espécie com alto potencial invasor.

Isso quer dizer que, uma vez que as tilápias escapam dos cultivos, elas se estabelecem na natureza e multiplicam, tornando-as um tipo de praga aquática de difícil controle. Além disso, o cultivo intensivo destes organismos em tanques-rede pode causar inúmeras alterações ambientais, como o crescimento de algas tóxicas devido ao aumento da quantidade de nutrientes na água (restos de ração e excretas dos peixes), a transmissão de doenças para a fauna nativa e a associação de outras espécies invasoras, como incrustações de mexilhão dourado que causam prejuízos ao produtor.

Criação de peixes em tanques-rede: quais prejuízos para o meio ambiente?

Apesar da vasta evidência que  demonstra o impacto da tilápia no ambiente natural no mundo todo, inclusive no Brasil8, o governo brasileiro insiste em afirmar que ela não é capaz de se estabelecer em reservatórios devido à profundidade típica destes ambientes e presença de predadores2. Assim, a produção de tilápia continua crescendo e sendo cada vez mais incentivada, mesmo quando o país se comprometeu em agendas globais para erradicação de espécies exóticas9.

No Brasil, os políticos e tomadores de decisão sempre apostam em soluções milagrosas para o desenvolvimento econômico

Uma das justificativas do governo para o incentivo à criação de tilápia em reservatórios é a geração de emprego e renda. Mas, infelizmente, essa não é bem a realidade. Apenas os grandes produtores que detém a tecnologia necessária para produção em grande escala é que se beneficiam. As comunidades ribeirinhas, que muitas vezes já são prejudicadas pelo próprio empreendimento das barragens, não dispõem de conhecimento técnico e nem financiamento para implementar essa atividade. Nesses casos, a produção é feita de forma praticamente amadora e não se sustenta por muito tempo5. Até mesmo em cultivos de larga escala, a geração de empregos diretos e indiretos é pequena, sendo que a relação custo ambiental e benefício socioeconômico fica desequilibrada.

No Brasil, os políticos e tomadores de decisão sempre apostam em soluções milagrosas para o desenvolvimento econômico, importando tecnologias de outros países que na maioria das vezes não são viáveis aqui. Exemplos disso foram as introduções do caramujo africano para a produção do “escargot brasileiro”, do javali para a caça esportiva e recentemente do peixe asiático panga para aquicultura, espécies que causaram, e causam, diversos danos ecológicos e econômicos ao país.

Ironicamente, somos um dos países mais diversos do mundo e possuímos a maior riqueza de espécies de peixes de água doce, o que significa uma ampla gama de opções para consumo que podem ser exploradas e que muitas pessoas nem mesmo conhecem10.

Pescador na rua

Será  que um país tão diverso como o Brasil precisa depender quase que completamente de espécies importadas para se desenvolver economicamente? Não estamos perdendo uma ótima oportunidade de valorizar nossa biodiversidade e culturalidade criando valor agregado a produtos nacionais?

O papel do governo nesse cenário deveria ser o de defender nossa riqueza, incentivando e possibilitando uma aquicultura sustentável baseada em espécies nativas. Só assim poderemos de fato alcançar a soberania alimentar: ter o poder de escolha sobre o que comemos, com uma maior disponibilidade de sabores e texturas; e principalmente, com a valorização de produtos regionais. Ou então, lamentavelmente, as próximas gerações só terão tilápia para colocar no prato.

Para mais informações:

  1. ‘Reforma aquária’ de Lula, como é que é? 2010. Disponível em: https://marsemfim.com.br/reforma-aquaria-de-lula/
  2. Bolsonaro quer criar tilápia em Itaipu. 2020. Disponível em: https://istoe.com.br/bolsonaro-quer-criar-tilapia-em-itaipu/
  3. Decreto desburocratiza criação de peixes em águas da União. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/decreto-desburocratiza-criacao-de-peixes-em-aguas-da-uniao
  4. FAO. 2020. FAO yearbook. Fishery and Aquaculture Statistics 2018. Roma.
  5. Wagner C. Valentini et al. 2021. Aquaculture in Brazil: past, present and future. Aquaculture Reports 19, 100611.
  6. Thiago V. T. Occhi et al. 2020. O pecado do não saber: Como os impactos ecológicos das espécies exóticas invasoras influenciam nosso dia a dia. Bioika 5, 1–8.
  7. IBGE. 2020. Pesquisa da Pecuária Municipal 2018-2019. Rio de Janeiro.
  8. André B. Nobile et al. 2020. Status and recommendations for sustainable freshwater aquaculture in Brazil. Reviews in Aquaculture 12, 1495–1517.
  9. Convenção Sobre Diversidade Biológica. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade/convencao-sobre-diversidade-biologica
  10. Julian D. Olden et al. 2020. There's more to fish than just food: Exploring the diverse ways that fish contribute to human society. Fisheries Magazine 45, 453-464.

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Oscar Pelaez

emailopelaez@revistabioika.org

Biólogo, Mestre em Ciências ambientais e Doutor em Ciências. Atua na área de pesquisas em ecologia, com ênfase em ecologia de peixes, diversidade funcional e filogenética.

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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David González

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Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Edna Liliana Amórtegui Rodríguez

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Bióloga da Universidade Nacional da Colômbia. Estou convencida de que o conhecimento deve estar aberto e disponível não só para o público especializado, mas para toda a sociedade. Considerando o impacto que tem a investigação científica em nossas vidas, estou interessada em contribuir na divulgação, especialmente em questões de ecologia.

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Isabela Machado

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Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

emailmirtha.angulo@revistabioika.org

Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.


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