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Fagner Junior Machado De Oliveira

emailfagner_biologia@hotmail.com

Universidade Federal de Goiás – Pesquisadora de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução.

O sabor amargo do peixe exótico: A conta vai além do valor pago no mercado

Uma reflexão sobre os impactos negativos que o consumo de espécies de peixes exóticas podem ter no meio ambiente e sobre a importância de nossas escolhas alimentares.



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Oreochromis sp.

Nos últimos anos, com o aumento das discussões sobre sustentabilidade, uma parcela da sociedade tem aumentado seu interesse no impacto causado pela alimentação sobre os aspectos ambientais, sociais e econômicos1. De fato, ouvimos falar muito sobre os impactos negativos da produção das carnes bovinas, suínas e de aves sobre os ecossistemas naturais e suas relações com as mudanças climáticas. 

Dessa forma, o mercado alimentício interessado nesse público, oferta fontes de proteínas de animais que potencialmente teriam um menor impacto ambiental associado à sua produção, como carnes de peixes exóticos. Mas a realidade não é bem assim! Nos últimos anos, houve um aumento da produção de peixes de água doce exóticos, sendo que os impactos dessa produção tem sido alvo de diversos estudos.

Uma espécie exótica é aquela que é inserida no meio natural ou produzida em escalas comerciais fora da sua área de distribuição natural (onde ela seria nativa). O exemplo mais comum para na América são as tilápias (Oreochromis spp. e Coptodon spp.), espécies exóticas de peixe de água doce com maior produção no Brasil por exemplo2, nativas da África e trazidas ao país por volta da década de 19503. O sabor da carne da tilápia cativou o paladar da população, sendo comumente encontrada na culinária de bares, restaurantes e na cozinha doméstica. Geralmente, esses peixes são criados em fazendas aquícolas em sistemas de tanques-rede ou escavados. Esse tipo de produção, como é realizado na maioria dos sistemas de aquicultura, em geral apresenta dois principais impactos negativos no meio ambiente4:  excesso de substâncias lançadas na água e contato das espécies exóticas com a fauna nativa (outros peixes, insetos aquáticos, organismos planctônicos). Vamos entender melhor cada um deles.

Tanques rede em Contagem, Minas Gerais.

Como em todos os sistemas de produção intensiva, há o uso de vários produtos cujos excedentes vão direto para meio ambiente, como ração e antibióticos. Nos sistemas de tanques, um grande problema é a eutrofização, que é o efeito que a grande quantidade de nutrientes tem, resultando na multiplicação excessiva de microrganismos. Isso acontece devido ao lançamento direto da ração rica em compostos orgânicos e fósforo na água, ou pela liberação de resíduos da produção de sistemas fechados nos ambientes aquáticos. Os peixes produzidos também excretam uma grande quantidade de compostos nitrogenados e fosforados, podendo causar eutrofização. 

Os microrganismos em excesso alteram as propriedades físicas e químicas da água, causando, entre outros efeitos, a redução do teor de oxigênio. Isso afeta negativamente as populações biológicas locais, que dependem do oxigênio dissolvido na água para sobreviver. Além disso, na aquicultura são usados diversos antibióticos para o controle de doenças e parasitas nos peixes, cujos resíduos têm efeitos negativos sobre os microrganismos benéficos (por exemplo, os fixadores de nitrogênio atmosférico) e a macrofauna do ambiente, e ainda pode contaminar a água captada para o consumo doméstico5.

Espécies de peixes

Outro problema frequente é o escape dessas espécies exóticas para o ambiente natural. Devido principalmente a defeitos ou manejo incorreto das estruturas, ocorrem escapes acidentais de alguns indivíduos ou até fugas em massa. Quando as espécies exóticas entram em contato com a fauna nativa, elas competem por alimento e outros recursos e, direta ou indiretamente, podem causar a redução das abundâncias das espécies nativas ou mesmo extinções locais. Isso pode afetar espécies de peixes nativas de maior valor comercial (como piau e curimba), causando impactos sociais diretos nas comunidades ribeirinhas, que dependem do pescado para a subsistência ou como fonte de renda.

Outro problema é a introdução de espécies entre bacias hidrográficas de um mesmo continente. Nesses casos, temos também a questão da hibridização, que é o cruzamento de duas espécies diferentes, geralmente muito próximas. Um exemplo é o tambacu, resultante do cruzamento entre o pacu-caranha (nativo da bacia Paraná-Paraguai), e o tambaqui, (das bacias dos rios Amazonas e Orinoco). O convívio das espécies nativas com o híbrido fértil pode reduzir a variabilidade genética das populações nativas, deixando-as menos resistentes às doenças ou a mudanças ambientais, aumentando as chances de extinção.

Mapa de bacias hidrográficas brasileiras

Embora o consumo e a produção de espécies de peixes brasileiras tenham aumentado6, os problemas com os métodos de produção e a introdução de espécies permanecem. Portanto, o “preço” pago ao consumir uma espécie exótica não é só o que vem impresso na nota fiscal dos comércios. Isso porque não são contabilizados os prejuízos com a perda da integridade dos ambientes aquáticos e da biodiversidade de peixes nativos, além das alterações nos serviços ecossistêmicos e na forma de vida de comunidades tradicionais. Apesar da contribuição da aquicultura para a renda de produtores e segurança alimentar, os métodos comumente utilizados causam impactos negativos significativos nos ambientes naturais, principalmente quando são realizados com espécies exóticas.

É necessário que a sociedade cobre métodos menos impactantes de produção e fiscalização pelas entidades públicas responsáveis. Além disso, quando você estiver com aquela vontade de comer um peixinho, opte por consumir um peixe nativo.

Mais informações:

  1. Folhapress. 2019. Preocupação ambiental atinge venda de carne e bebidas. Disponível em: https://www.folhape.com.br/economia/economia/economia/2019/09/11/NWS,116037,10,550,ECONOMIA,2373-PREOCUPACAO-AMBIENTAL-ATINGE-VENDA-CARNE-BEBIDAS.aspx
  2. Salomão, R. 2019. Tilápia leva piscicultura brasileira a 5 bilhões de faturamento. Disponível em: https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Criacao/Peixe/noticia/2019/02/tilapia-leva-piscicultura-brasileira-r-5-bilhoes-de-faturamento.html
  3. Camoleze, E. 2019. Tilapia: O segundo peixe mais consumido do mundo. Disponível em: https://animalbusiness.com.br/producao-animal/criacao-animal/tilapia-o-segundo-peixe-mais-consumido-do-mundo/
  4. James-S. D. 2009. Aquaculture Production and Biodiversity Conservation. BioScience 59: 27–38.
  5. Cabello F. C. 2006. Heavy use of prophylactic antibiotics in aquaculture: A growing problem for human and animal health and for the environment. Environmental Microbiology 8, 1137–1144.
  6. Ulrich, S-P. 2017. Native fish species boosting Brazilian’s aquaculture development. Acta of Fisheries and Aquatic Resources 5, 1–9.

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Anielly Oliveira

emailanielly.oliveira@revistabioika.org

Bióloga por paixão, acredito que o conhecimento científico gerado na academia deve buscar meios de encontrar a sociedade. Quanto mais isso for feito, menos políticas errôneas serão adotadas pelos tomadores de decisões.

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Aleja Vélez Denhez

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Estou interessada no estudo de tecnologias sustentáveis que contribuam na diminuição do impacto ambiental das nossas ações cotidianas. Acredito que compartilhar o conhecimento é um dever do pesquisador, e criar consciência do impacto que as nossas decisões têm sobre a saúde do planeta é um passo necessário para a sua preservação.

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Alfonso Pineda

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Sou biólogo colombiano, finalizando doutorado no Brasil. Acredito que qualquer uma das áreas do conhecimento pode contribuir para a melhoria da vida dos demais, e que a educação é uma ferramenta poderosa. Além disso, acredito que o acesso a informação permite às pessoas maior protagonismo social.

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Ana Marcela Hernández Calderón

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Comunicadora social e jornalista da Universidad de la Sabana com 19 anos de experiência na área editorial. Estou convencida de que compreender a nossa mãe Terra e descobrir todas as suas mecânicas de vida, pode nos dar pistas e motivação para cuidar dela. É por isso que é indispensável que todos nós possamos acessar essa informação.

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De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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David González

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Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Isabela Machado

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Formada em Biologia e Comunicação Social, especilista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Mirtha Angulo

emailmirtha.angulo@revistabioika.org

Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.


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