Áreas úmidas na Colômbia: pela biodiversidade e um futuro urbano sustentável

As áreas úmidas são de fundamental importância para a biodiversidade em todo o mundo e estão presentes até mesmo nos grandes centros urbanos. Conheça um pouco sobre as áreas úmidas colombianas e iniciativas para preservá-las

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Rossember Saldana Escorcia

emailrossember21@gmail.com

Estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária, Universidade Popular de Cesar, (Aguachica, Colômbia). Participo em pesquisas em gestão ambiental e desenvolvimento humano sustentável, especificamente em biodiversidade, gestão de recursos hídricos e qualidade da água, entre outros. Atualmente estou interessado em projetos de identificação de espécies de florestas tropicais secas com potencial de recuperação de bacias hídricas, recargas hídricas em áreas úmidas e avaliação de seus serviços ambientais. Me interesso por temas que abordam o manejo e a importância das áreas úmidas em nosso território colombiano megadiverso.



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Ciénaga de Zapatosa

Segundo a Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, mais conhecida como Convenção de  Ramsar, as áreas úmidas são aquelas “superfícies cobertas de água, naturais ou artificiais, permanentes ou temporárias, paradas ou correntes, doces ou salgadas”. Podem ser divididas em três categorias: marinhas e costeiras, continentais e artificiais. Estes sistemas estratégicos são ricos em biodiversidade e vitais para a existência humana, já que atuam como fontes e purificadores de água, com importância para a regulação dos ciclos hídricos e biogeoquímicos (processos que garantem a ciclagem dos elementos químicos no meio ambiente), bem como para a conservação de aproximadamente 40% da diversidade biológica do mundo. Além disso, são grandes sumidouros, armazenando mais de 30% do carbono terrestre, fundamentais para conter o aquecimento global. 

Em 2015 com o acordo de Paris1, cujo assunto central foi as mudancas climáticas, foi reconhecida a capacidade das áreas úmidas para armazenar carbono e limitar a concentracao deste gas na atmosfera. Com isso, foi realizada uma chamada aos tomadores de decisões para que a conservação e a restauração destes ecossistemas fossem inclusas nas políticas nacionais, cumprindo os objetivos propostos no acordo.

Áreas úmidas da Colômbia

Estima-se que 6,4% da superfície terrestre está coberta por áreas úmidas, nas quais habitam uma grande diversidade de espécies. Na Colômbia há registros de cerca de 31.000 áreas úmidas, configurando uma imensa rede de ecossistemas indispensáveis para a vida. Devido a isto e ao acordo de Paris, o Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (MADS)2, o Instituto de Investigação de Recursos Biológicos Alexander Von Humboldt (IAVH) e o Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (IDEAM), apresentaram o avanço do mapa das áreas úmidas na Colômbia, revelando que 1.094 municípios dos 1.124 existentes que o país tem, possuem áreas úmidas, representando 31 milhões de hectares, ou seja, 87% da população convive com áreas úmidas. 

Porém, a Colômbia possui apenas 12 áreas úmidas de importância internacional reconhecidos pela referida convenção: Sistema Delta Estuário do Rio Magdalena;  Pântano de Santa Marta; Lagoa Cocha em Nariño; Delta do Rio Baudó em Chocó; Sistema de Lagos Chingaza em Cundinamarca; Lagoa Sonso do Vale do Cauca; Complexo Úmido Estrela nos estados de Guainía e Vichada; Lagos Tarapoto no Amazonas; Complexos Pantanosos Laguna del Otún Risaralda; Pântano de Ayapel em Córdoba; Complexo Pantanoso Urbano de Bogotá; Pântano de Zapatosa em César e o Rio Bita, no estado de Vichada.

Área úmida em Bogotá

Em 2019, o governo do presidente da Colômbia Iván Duque declarou que atualizará as políticas nacionais das áreas úmidas, retomando a agenda do presidente Santos que formulou a normativa de proteção ambiental especial através do artigo 172 da Lei n° 1753 de 2015 (Plano Nacional de Desenvolvimento), pelo qual se passou de 5 para 12 sítios Ramsar anteriormente mencionados. No entanto, esta riqueza natural se encontra em degradação permanente por consequências das ações humanas. Porém, você sabia que estes sistemas fornecem bem-estar aos seres humanos?

Segundo a Convenção de Ramsar, as áreas úmidas são ecossistemas indispensáveis pelos inúmeros benefícios ou “serviços ecossistêmicos” que brindam a humanidade, desde o fornecimento de água doce, alimentos, materiais de construção, e biodiversidade, até o controle de pragas, recarga de águas subterrâneas e mitigação das mudanças climáticas. Mas como combatem as mudanças climáticas?

As áreas úmidas cobrem uma pequena porção do planeta, mas os dados científicos são claros, sua capacidade para capturar carbono é enorme e efetiva, de acordo com os relatórios das pesquisadoras María Cecilia Roa-García, da Universidade dos Andes e David Suárez Duque, da Universidade Tecnológica Equinocial (Ecuador)3,4

Área úmida

Dessa forma, as áreas úmidas filtram a matéria que contém carbono da água, como folhas e resíduos de animais. Outra vantagem é que os pântanos crescem rapidamente e são fortes, o que significa que eles têm uma longa vida de sucção de carbono da atmosfera.

Por outro lado, as áreas úmidas que se encontram na zona periférica das cidades as tornam habitáveis, trazendo múltiplos benefícios. No entanto, as cidades estão em contínua expansão, e quando não são controladas, a urbanização representa uma ameaça para as áreas úmidas urbanas, que são frequentemente drenadas, contaminadas ou degradadas para obter terras para habitação, agricultura e indústria.

Da mesma forma, a regulamentação dessa urbanização com leis, atualmente tem causado tensão entre políticas ambientais, agrícolas, públicas, entre outras. Segundo o comentário de Germán Andrade, especialista em conservação da biodiversidade e gestão de ecossistemas da Universidade dos Andes “Estamos diante da necessidade de ter mais consciência e conhecimento desses espaços, ajustar políticas ambientais, articulá-las com outras políticas e reconhecer que as áreas úmidas são umas das nossas principais ferramentas para enfrentar a crise climática atual”. 

O governo colombiano criou o Programa Nacional de BiodiverCidades que garantirá a conectividade entre as áreas urbanas e rurais, com o objetivo de conservar o patrimônio natural do país e envolver os cidadãos na proteção do ecossistema e desenvolvimento sustentável, cobrindo o objetivo 11 -  Cidades e comunidades sustentáveis5, que se centra nas cidades e seu propósito para o ano 2030, de onde as cidades e os assentamentos humanos são inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis ratificando a proteção das áreas úmidas.

Por fim, as áreas úmidas são essenciais para a mitigação das mudanças climáticas, para a proteção da biodiversidade e sobrevivencia dos seres humanos. Mas é necessário aumentar as pesquisas sobre a dinâmica destes ecossistemas, para que se obtenha então a regulação das atividades antrópicas através da implementação de programas de manejo e políticas públicas que garantam a conservação, sem esquecer que:

As áreas úmidas são uma parte fundamental do território que lamentavelmente se está se invisibilizando

Sandra Vilardy

Referências

  1. United Nations. 2015. ¿Qué es el Acuerdo de París? CMNUCC. United Nations Climate Change. 
  2. Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sostenible (MADS). 2013. Humedales http://www.minambiente.gov.co
  3. Roa-García, M. C. & Brown, S. 2016. Caracterización de la acumulación de carbono en pequeños Humedales Andinos en la cuenca alta del Río Barbas (Quindío, Colombia). Caldasia, 38, 117–136. 
  4. Suárez Duque, D., Acurio, C., Chimbolema, S., & Aguirre, X. (2016). Análisis Del Carbono Secuestrado En Humedales Altoandinos De Dos Áreas Protegidas Del Ecuador. Ecología Aplicada, 15(2), 171. 
  5. Objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS). Objetivo 11 – Cidades e comunidades sustentáveis. Disponível em: https://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/sustainable-development-goals.html

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Anielly Oliveira

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Bióloga por paixão, acredito que o conhecimento científico gerado na academia deve buscar meios de encontrar a sociedade. Quanto mais isso for feito, menos políticas errôneas serão adotadas pelos tomadores de decisões.

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Alexandrina Pujals

emailale.pujals@revistabioika.org

Bióloga, especialista em Planejamento Ambiental, Gestão dos Recursos Naturais e Mestre em Ciências Ambientais. Acredito que o conhecimento científico tem valor maior quando compartilhado e popularizado. A divulgação torna esse conhecimento acessível ao público, alinhando argumentos e ideias que busquem a conservação do meio ambiente.

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Ana Marcela Hernández Calderón

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Comunicadora social e jornalista da Universidad de la Sabana com 19 anos de experiência na área editorial. Estou convencida de que compreender a nossa mãe Terra e descobrir todas as suas mecânicas de vida, pode nos dar pistas e motivação para cuidar dela. É por isso que é indispensável que todos nós possamos acessar essa informação.

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Gabriela Doria

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Sou bióloga/botânica apaixonada pelas plantas e o conhecimento da natureza. Doutora em Ciências das Plantas na Universidade de Cambridge. Tão importante como desenvolver pesquisa de alta qualidade é motivar a curiosidade científica e o desfrute razoável da natureza na sociedade.

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Isabela Machado

emailisabela.machado@revistabioika.org

Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.


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