Desde o microcosmo até os confins do universo na sala de aula


Um olhar ao projeto de iniciação cientifica “Viajantes da Selva Invisível”, desenvolvido pelos alunos da Instituição Educativa El Tobal, localizada em área rural do município colombiano de Carcasí.

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Bernardo Rey Moreno

emailbreym@unal.edu.co

Biólogo da Universidade Industrial de Santander. Mestre em Ensino de Ciências Exatas e Naturais pela Universidade Nacional da Colômbia. Professor de Ciências Naturais e Educação Ambiental na Instituição Educativa El Tobal no município de Carcasí (Santander, Colômbia).



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Grupo de pesquisa “Viajantes da selva invisível”
Escondida entre as montanhas, se encontra a Instituição Educativa El Tobal, no município de Carcasí, no Estado de Santander, Colômbia. Esta instituição rural beneficia 233 alunos em 9 localidades. O projeto “Viajantes da selva invisível” teve início em 2015 com alunos do ensino fundamental junto com o programa Geração Consciência (GEN) para formar grupos de pesquisa nas instituições do estado.

Certo dia um aluno perguntou:

—Quantos anos você tem, professor? 38?

—Não, essa não é a resposta. Pois, pense nisso. Após duas semanas olhando para a bela abóbada celeste que nos cobre, você descobrirá a resposta. (E com orgulho digo) Tenho os anos que o universo tem, porque se somos feitos de matéria, foi desde o início.

Então as perguntas começaram a subir de nível. Desta forma, outro aluno perguntar:

—O que é toda aquela lama em uma poça e para que serve?

Com duas perspectivas: uma para o céu e outra para a poça. E é assim que começa esta viagem de Viajantes da selva invisível”. Entretanto, o que fazer com essa selva até então invisível? As Microalgas. Como posso me aproximar das estrelas e constelações? O Macrocosmo

Laboratórios artesanais
Laboratorios artesanales
Laboratorios artesanais

Atualmente o aluno não resiste à passividade das aulas tradicionais. Geralmente, ele busca ser ativo, compartilhar, questionar e aprender a investigar realizando pesquisa. Assim, surge um questionamento: Como fazer pesquisa de qualidade em sala de aula para solucionar problemas ambientais e satisfazer os interesses dos alunos da Instituição?

O professor deixará de ser o dispensador de conhecimentos, mas sim um estimulador da pesquisa no aluno, um seletor de informações e também um inovador em suas práticas por meio da pesquisa. Os resultados de programas experimentais com professores pesquisadores permitem concluir que o professor pode investigar enquanto ensina, ir da teoria à prática3.

Atualmente o aluno não resiste à passividade das aulas tradicionais. Geralmente, ele busca ser ativo, compartilhar, questionar e aprender a investigar realizando pesquisa

Na Colômbia, é necessário incluir a pesquisa da pré-escola ao ensino fundamental, e não esperar a pós-graduação, nem mesmo a graduação, como afirma o relatório da Comissão de Sabios, “Colômbia: à beira da oportunidade2. Assim, destacam-se os projetos patrocinados por outros programas, como “Ondas” da Miniciencias4, que substituiu o programa “Cucli-Cucli5, uma revista de conhecimento científico de situações cotidianas com a qual as crianças podem identificar e aprender sobre diferentes fenômenos naturais. O programa Ondas, busca promover uma cultura investigativa com acompanhamento de professores e assessoria externa, desenvolvendo projetos a partir dos questionamentos dos alunos. Miniciencias fornece financiamento e consultoria por meio de redes departamentais locais e nacionais3. Na Instituição Educativa El Tobal, a pesquisa foi implementada como uma estratégia pedagógica em 2015, por meio do programa GEN dirigido por Cesar Aurelio Rojas. A experiência ao longo desses anos tem levado a refletir sobre as demandas de tempo para explorar, escrever, debater, informar, argumentar, entre outras características da pesquisa de qualidade em sala de aula. Da “mão” da investigação veio a leitura de diretrizes básicas e padrões de competências para ter qualidade na aventura da incerteza. 

Reportagem de 2017 no jornal Vanguardia

Inicialmente, o primeiro grupo de pesquisa trabalhou com microalgas, que despertaram muito interesse pela morfologia, facilidade de coleta e principalmente por serem cultivadas em garrafas plásticas. Usando essas microalgas, trabalhamos com o problema das águas residuais por meio da biorremediação.

Recebemos o apoio do programa GEN, de Ondas de Miniciencias, da Dra. Graciela Chalela da Universidade Autônoma de Bucaramanga, bem como pela comunidade educativo da Instituição Educativo El Tobal

Do projeto “Viajantes da selva invisível”, surgiram as seguintes estratégias: 

  1. Plantando perguntas ou/e projetos de pesquisa: alunos do segundo e terceiro colegial como líderes trabalham com outros alunos das series inferiores.
  2. Revisão bibliográfica (artigos): para resolução de problemas conceituais e fundamentos para o desenvolvimento de uma pergunta. Revisão por tópicos em espanhol e inglês (em algumas séries)
  3. Montagem de laboratório experimental: com o objetivo de que o aluno realize experimentos em casa com o auxílio de materiais como, bomba de oxigênio, microscópio e medidor de pH.   
  4. Mala de viagem: contém microscópio, vidraria do laboratório de química, termômetro, luvas, reagentes e um caderno para anotações.
  5. Experimentos por meio de "Aprendizagem ativa": desenhos experimentais para avaliar as variáveis por meio de perguntas ou situações para prever os resultados.
  6. Estratégias para a compreensão dos conceitos: memorização (mnemônica), modelos (protótipos), vídeos curtos feitos por alunos, histórias científicas e visualização de documentários.
  7. Diário para registro de investigações: caderno de registro das atividades.
  8. Avaliação por meio de vídeos curtos em sala de aula: retroalimentação e correção de conceitos, revisão do diário, revisão de atas de reuniões, avaliação de protótipos, avaliação do registro fotográfico dos experimentos, discussão de projetos ou leituras em mesa redonda, apresentação do andamento da pesquisa, onde são avaliados o vocabulário, a expressão corporal, o aprimoramento da leitura de artigos.
  9. Os Grupos de pesquisa formados são: “Viajantes da selva invisível”, “energia”, “reconstruindo nosso passado”, “jovens astrônomos exploradores do universo”, “era uma vez uma semente”, “fungizinhos em busca de um reino”.
  10. Palestras científicas: Em tempos de pandemia, um grupo de estudantes criou um espaço para convidar especialistas nacionais e internacionais e discutir diversos temas por meio de palestras.  
Prêmio especial para o melhor projeto de pesquisa
Prêmio especial para o melhor projeto de pesquisa

O sucesso tem sido tão grande que se alcançaram circuitos de feiras nacionais e internacionais e os alunos mostraram que, pesquisas podem ser realizadas apesar das dificuldades. Os primeiros integrantes do grupo de pesquisa realizam atualmente estudos universitários nas áreas de Zootecnia, Engenharia Agronômica e Engenharia Civil. Em reconhecimento, recebemos também um prêmio especial pela melhor proposta de pesquisa da Colômbia no concurso "Soluções para o futuro da Samsung-Ondas Miniciencias", no qual, ganhamos três vagas para participar da feira de ciências "Intel ISEF 2017", realizada em Los Angeles, Califórnia. Nesse evento ficou demonstrado que com um bom trabalho é possível alcançar um alto nível de pesquisa mesmo no ensino médio. Deixando claro, que isso exige um maior comprometimento do governo e das entidades privadas. 

Campamento de verão
Campamento de verano
Campamento de verano

Além das menções citadas acima, recebemos outros reconhecimentos como: o primeiro lugar na “Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (MOSTRATEC)” realizada no Brasil em 2018; um convite para participar em outra feira de ciências na Argentina; o segundo lugar na Universidade de Boyacá (Colômbia) e um convite para quatro alunos e um professor para participar do acampamento de verão “UNESCO centro para a paz” (International Model United Nations/Science, Technology, Engineering, Art y Mathematics, IMUN/STEAM) realizado em Washington em 2019.

Cienciheróis Colômbia
Cienciheroes Colombia Cienciheroes Colombia
Cienciheroes Colombia

Toda esta experiência nada mais é do que a vontade de aprender, de conhecer e de superar as barreiras da sala de aula, além de oferecer outras oportunidades de aprender, passando pelo julgamento e posterior reflexão, assumindo as recomendações. O verdadeiro ganho deve ser sempre o amor pela ciência e aprendizagem, embora seja verdade que devemos entrar em um processo competitivo, na ciência não deve haver vencedores ou perdedores, apenas processos que permitem melhorar e criar relações afetivas para gerar redes de aprendizagem. Desta forma, os alunos são mais críticos e atualmente trabalha-se em grupos de pesquisa no ensino fundamental com problemas de interesse dos alunos. A visão da escola mudou, propondo soluções para problemas ambientais a partir de grupos de pesquisa. Foi proposto a melhoria do currículo, com foco no desenvolvimento de competências e da metodologia por projetos em todas as áreas. A experiência transcendeu a sala de aula, permitindo o desenvolvimento das habilidades do pensamento e transformando a comunidade. 

Clubes de Ciências
Clubes de Ciências

Talvez os interesses desses alunos mudem, mas eles já iniciaram um processo e suas decisões na vida podem ser feitas com pensamento crítico e responsável. Questionando tudo e indo até onde seus sonhos permitam com a ajuda da ciência. Toda essa “viagem” começou com uma lama esverdeada e um olhar para o lindo céu estrelado e transcendeu toda uma comunidade, mudando sua visão e apostando na academia como meio de progresso.  

Agradecimentos especiais 

  • Programa Geração Consciência (GEN), Programa Ondas de Miniciencias Colômbia, Cooprofessores, Clubes de Ciência Colômbia, Scientelab, Instituição Educativa El Tobal, Unesco Centro pela Paz. Yolanda Bohórquez Calderón, Audilio Moreno, Amanda Pinto, Luis Alexander Niño.
  • Viajantes: Heiner, Jhon, Ivan, Santiago, Gelver, Eduar, Edilmer, Alonso, Brayan, José Daniel, Ameli, Daniela, Mariana, Camila, Yolfrank. 
  • GEN: Diana, Eliana, Cesar
  • Ondas: Nury, Patricia, Jenny
Grupo premiado do projeto “Viajantes da selva invisível”

Referências

  1. Gómez, B. R. (2009). Investigación de aula: formas y actores. Revista Educación y Pedagogía, 21(53), 103-112.
  2. Presidencia de la República, 1994, Colombia: al filo de la oportunidad, Bogotá, Consejería Presidencial para el Desarrollo Institucional, Misión de Ciencia, Educación y Desarrollo.
  3. Restrepo, B., 2003, “Investigación formativa e investigación productiva de conocimiento en la universidad”, Revista Nómadas, Universidad Central de Bogotá, núm. 18, pp. 195-206.
  4. https://minciencias.gov.co/cultura-en-ctei/ondas
  5. https://babel.banrepcultural.org/digital/collection/p17054coll10/id/2788

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

emailmirtha.angulo@revistabioika.org

Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Carolina Gutiérrez Cortés

emailcarolinagc@revistabioika.org

Sou microbióloga e trabalho com a geração de novas alternativas para o processamento saudável de alimentos mediante o uso de aditivos naturais. Espero poder compartilhar este conhecimento e aproveitar as experiências de outras pessoas. Por isso, acredito no desafio de comunicar com uma linguagem simples tudo o que é produzido na academia.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Isabela Machado

emailisabela.machado@revistabioika.org

Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Rafael Franco Ferreira

emailrafaelfferreira1987@revistabioika.org

Físico e estudante de doutorado em Física da Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Como entusiasta das ciências e da filosofia, acredito que o conhecimento transforma o indivíduo e sua cultura. Penso que a socialização das ciências ajuda a criar uma sociedade mais crítica, justa e independente de seus governantes.



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