Como os peixes podem ser afetados por características ambientais?


As características do ambiente são responsáveis por definir a presença das espécies de peixes em um determinado local. Neste conteúdo vamos entender como mudanças nestas características, devido a construção de uma usina hidrelétrica, podem influenciar na persistência das espécies e as funções ecológicas fornecidas por elas.

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    Amanda Cantarute

    emailamandacantarute@revistabioika.org

    Bióloga e doutoranda em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais pela Universidade Estadual de Maringá. Acredito que por meio da socialização do conhecimento científico podemos formar cada vez mais pessoas empoderadas, justas e conscientes do seu verdadeiro e importante papel no mundo.

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    Bárbara Angélio Quirino

    emailbarbara.quirino@revistabioika.org

    Bióloga e mestranda em ecologia pela Universidade Estadual de Maringá. As pequenas ações individuais são primordiais, mas somente quando estendemos nosso conhecimento para outras pessoas e unimos forças é que, de fato, podemos revolucionar o mundo.



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O ambiente pode definir a presença das espécies de peixes. Mudanças nas características ambientais podem alterar também quais espécies não conseguem persistir nesses locais.

Diferentes aspectos podem ser considerados para avaliar a estrutura das comunidades ecológicas, ou seja, o conjunto de espécies presentes em determinado local. O mais antigo e utilizado na comunidade científica é a riqueza de espécies, na qual identificamos o número de espécies nas comunidades, e sua composição, ou seja, a identidade das espécies. Por exemplo, no rio Paraná, que é o segundo maior rio da América do Sul, podemos encontrar as espécies curimbatá, dourado, piracanjuba, pintado, entre muitas outras. 

Diversidade de peixes no rio Paraná

Outro aspecto que é considerado muito importante quando falamos sobre comunidades ecológicas, são as características funcionais das espécies, ou seja, características que estão ligadas às funções das espécies no ambiente, que podem estar relacionadas à alimentação, reprodução, comportamento, forma das espécies, entre outras.

Muito se fala hoje em dia sobre os benefícios que os ecossistemas naturais fornecem para nossa sobrevivência e qualidade de vida, como a ciclagem de nutrientes, purificação da água e fertilização do solo, sendo que as espécies são agentes fundamentais para o fornecimento desses benefícios (também conhecidos como serviços ecológicos). Dessa forma, foram criados índices que medem a diversidade de funções fornecida pelas espécies, por exemplo, índices que mostram se há muita variedade de funções e índices que mostram se são funções redundantes ou exclusivas.

Dito isso, o ponto central do nosso trabalho foi investigar como a variação do ambiente (mudanças nas características da água) afeta o número de espécies de peixes e as funções que essas espécies desempenham. Isso porque cada espécie pode responder de forma diferente diante das variações ambientais, por exemplo, diminuindo ou aumentando seu número de indivíduos - sua abundância. 

Planície de inundação do alto Rio Paraná.

O nosso local de estudo, a planície de inundação do alto rio Paraná, sofre constantemente com impactos das ações humanas, como a construção e operação de barragens hidrelétricas. Isso reflete em mudanças diretas nas características da água, como o aumento da transparência e a diminuição de nutrientes (como fósforo e nitrogênio). Além disso, as barragens podem alterar o nível da água das lagoas e rios abaixo, por reterem a água para a geração de energia elétrica. Esses impactos podem ter efeitos tanto no número de espécies como nos serviços ecológicos fornecidos pelo ambiente.

Encontramos em nossos resultados quatro características da água que tiveram efeitos significativos na variação do número de espécies e da diversidade funcional das comunidades: a) fósforo total (componente químico presente em proteínas e no DNA, mas também encontrado em efluentes domésticos e industriais); b) profundidade da lagoa; c) transparência da água e; d) nível da água da lagoa. 

Representação esquemática dos resultados encontrados no estudo

Conforme o fósforo total e a profundidade dos ambientes aumentaram, foi observada uma resposta de aumento na riqueza de espécies da comunidade. Fósforo em quantidades ideais na água pode indicar maior disponibilidade de alimento para os peixes, já que é um importante nutriente usado pelas algas, que por sua vez, são alimento para invertebrados. Assim, indiretamente, o fósforo é capaz de sustentar mais espécies em um mesmo local, incluindo espécies com diferentes hábitos alimentares, aumentando as funções desempenhadas pelos peixes no ambiente.

Ambientes mais profundos abrigam mais espécies devido a maior quantidade de habitats para serem ocupados, mesmo em períodos de seca. Por outro lado, a transparência e o nível da água resultaram em respostas negativas com o número de espécies e características funcionais. Ambientes mais claros podem resultar em menor número de espécies porque facilitam a predação de indivíduos jovens e peixes pequenos.

Raia

No entanto, apesar do menor número de espécies nessas condições, elas continuaram a apresentar funções distintas. A variação no nível da água, por sua vez, altera os ambientes de uma forma que em períodos de águas altas há maior conectividade entre diferentes locais. Isso favorece a troca de espécies entre eles, o que altera a abundância e a dispersão dos peixes (movimento dos indivíduos entre diferentes ambientes). Logo, considerando cada ambiente, a diversidade de características funcionais diminui, uma vez que os peixes passam a ocupar outros ambientes.

Representação esquemática do resultado encontrado no estudo em relação ao nível da água nas lagoas (PT)

Em suma, os resultados desse estudo mostram que as diversas características do ambiente podem influenciar de forma diferente as comunidades de peixes, levando ao aumento ou a diminuição do número de espécies e de características funcionais. Identificar quais características ambientais apresentam esse efeito nas comunidades de peixes é imprescindível para a manutenção de um ambiente equilibrado, uma vez que essas características podem ter relação direta com ações humanas e podem ser evitadas ou revertidas por meio de ações de manejo. Com isso, um melhor gerenciamento dos recursos naturais com o intuito de manter a maior diversidade de espécies e de características funcionais pode garantir o fornecimento de bens e serviços ecossistêmicos de qualidade para a população, que pode ir desde a pesca de grandes peixes comerciais até a purificação da água e a fertilização dos solos.

Artigo original disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00027-020-00727-x

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Taise Miranda Lopes

emailtaise.lopes@revistabioika.org

Sou bióloga e doutora em ciências ambientais pela Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que o acesso ao conhecimento, seja através de políticas públicas e divulgação científica, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais empática, justa e sustentável.

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Aleja Vélez Denhez

emailaleja.velez@revistabioika.org

Estou interessada no estudo de tecnologias sustentáveis que contribuam na diminuição do impacto ambiental das nossas ações cotidianas. Acredito que compartilhar o conhecimento é um dever do pesquisador, e criar consciência do impacto que as nossas decisões têm sobre a saúde do planeta é um passo necessário para a sua preservação.

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Anielly Oliveira

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Bióloga por paixão, acredito que o conhecimento científico gerado na academia deve buscar meios de encontrar a sociedade. Quanto mais isso for feito, menos políticas errôneas serão adotadas pelos tomadores de decisões.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Isabela Machado

emailisabela.machado@revistabioika.org

Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Sonia Yanira Rodríguez Clavijo

emailsonia.yanira@revistabioika.org

Com formação em Microbiologia, tenho trabalhado em biologia molecular e bioinformática. Ultimamente o ensino de zoonoses e epidemiologia, voltado para profissionais do meio ambiente, me permite fazer parte de uma mudança necessária em nossa sociedade e sua relação com o meio ambiente.


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