A eficiência de uma espécie exótica em capturar presas pode prever seu impacto ecológico


Peixes exóticos podem se adaptar facilmente as condições do ambiente, causando prejuízos econômicos e extinção de espécies nativas. Por isso, prever os impactos destas espécies é a melhor estratégia para a conservação. Neste conteúdo vamos conhecer um método matemático que pode prever os impactos ecológicos, a partir de dados da eficiência de captura e abundância de peixes exóticos no ambiente.

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    Larissa Faria

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    Bióloga e mestre em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente é doutoranda em Ecologia e Conservação também pela UFPR, e desenvolve sua pesquisa no Laboratório de Ecologia e Conservação.

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    Sofia Padilha Batistella

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    Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná. É estagiária voluntária do Laboratório de Ecologia e Conservação.

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    Maria Luiza Mocelim De Mattos

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    Graduanda em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal do Paraná. É bolsista de iniciação científica do Laboratório de Ecologia e Conservação.

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    Jean R. S. Vitule

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Bagres. Rural Pelling. Sikkim, Oct 2018.

Desde que o homem começou a transitar entre os continentes, algumas espécies associadas à atividade humana têm sido transportadas com ele por diversos motivos, como paisagismo, produção de alimentos e até mesmo de forma acidental, na água de lastro de navios, por exemplo. Uma espécie introduzida em um determinado ambiente onde ela não ocorreria naturalmente é chamada de espécie exótica e quando ela é capaz de se adaptar a este novo local ela passa a ser considerada uma espécie exótica invasora (para saber mais, leia também Uma aula sobre invasões biológicas). Algumas espécies exóticas se adaptam tão bem às novas condições que se tornam uma ameaça ao ambiente, causando impactos negativos como prejuízo econômico e extinção de espécies nativas (leia também: O pecado do não saber: Como os impactos ecológicos das espécies exóticas invasoras influenciam nosso dia a dia).

Bagre-do-canal, <em>Ictalurus punctatus</em>

Sendo assim, prever o impacto de uma espécie exótica invasora antes que ele ocorra e não possa ser revertido é a melhor estratégia para a conservação. Um exemplo de espécie exótica invasora no Brasil é o catfish, ou bagre-do-canal (Ictalurus punctatus). O catfish é uma espécie nativa da América do Norte que foi introduzida em diferentes partes do mundo para aquicultura e pesca esportiva. Essa espécie foi registrada no rio Guaraguaçu, no litoral do Paraná, que abriga uma enorme variedade de espécies de peixe miniaturizados, inclusive ameaçados de extinção, como o tetra (Mimagoniates lateralis).

Espécies exóticas invasoras, como o catfish, podem causar impacto por serem consumidoras mais eficientes dos recursos disponíveis. Por isso, uma comparação do comportamento alimentar da espécie exótica com o de uma espécie nativa similar pode auxiliar a prever seu impacto. Para avaliar o impacto do catfish no rio Guaraguaçu, comparamos a sua resposta funcional com a do jundiá (Rhamdia quelen), uma espécie de bagre nativa amplamente distribuída no Brasil.

A resposta funcional é uma forma de determinar matematicamente o comportamento alimentar de uma espécie em laboratório. Ela pode ser descrita como a relação entre o consumo e a quantidade de alimento disponível. Se essa relação for linear (conforme aumenta a disponibilidade de alimento, o consumo aumenta proporcionalmente), diz-se que a espécie apresenta resposta funcional do tipo I. Porém, o consumo de muitas espécies é limitado pelo tempo que elas levam para capturar e ingerir o alimento (tempo de manuseio), sendo assim, a proporção de alimento consumido é alta quando ele está em baixa quantidade, porém, a partir de um determinado momento, mesmo aumentando a disponibilidade de alimento, o predador não consegue consumir mais. Esse é o tipo de resposta funcional mais comum, conhecido como tipo II. Há ainda um terceiro tipo de resposta funcional em que a taxa de consumo é menor quando a disponibilidade de alimento é baixa, por ser mais difícil do consumidor encontrar o recurso.

Gráfica: Tipos de resposta funcional

A resposta funcional representa então o consumo per capita, mas para descrever o impacto da espécie como um todo, ela deve ser multiplicada pela quantidade de indivíduos (abundância) no ambiente natural. Combinando a informação da resposta funcional com dados da abundância das espécies na natureza, podemos obter um índice de impacto potencial relativo. Espécies que têm uma alta taxa de consumo per capita e são abundantes têm um potencial de impacto relativo elevado e, portanto, representam grande ameaça para a espécie que utilizam como recurso.

Em nosso estudo no rio Guaraguaçu, ambas as espécies apresentaram o mesmo tipo de resposta funcional (tipo II): em determinado ponto, mesmo aumentando a oferta de presas, os peixes não consomem mais, pois ficam limitados pelo tempo de manuseio. Porém, o catfish demora menos tempo para capturar e ingerir as presas, o que permite que ele consuma mais presas durante o mesmo período. Além disso, o catfish também é mais abundante no rio Guaraguaçu e por isso tem um potencial de impacto relativo maior. Este fato é preocupante, pois neste estudo foi utilizado como presa uma espécie nativa de peixe, o tetra-azul (Mimagoniates microlepis), muito semelhante ao tetra que está ameaçado de extinção, indicando o possível impacto do catfish sobre essa espécie vulnerável. Como o catfish é mais eficiente em consumir presas do que o jundiá, sua presença também pode representar um risco à espécie nativa pela competição por alimento.

Gráfica: Índice de potencial de impacto relativo

O estudo comparativo da resposta funcional tem se mostrado uma metodologia eficaz na avaliação dos impactos de espécies exóticas, pois além de ter baixo custo, consegue quantificar o impacto através de um índice numérico. No caso do catfish no rio Guaraguaçu, o uso desse método pôde esclarecer o quão potencialmente prejudicial ele pode ser para o ecossistema, principalmente considerando a presença de espécies ameaçadas que já possuem número reduzido de indivíduos. Dessa forma, é preciso monitorar e controlar a população de catfish nesse rio. Uma forma de realizar esse controle seria incentivando a pesca desta espécie sem devolvê-la ao ambiente. Além disso, o cultivo do catfish deve ser evitado na região para que as chances de possíveis escapes acidentais para o ambiente natural sejam reduzidos, uma medida que já consta na legislação (Portaria IAP nº59/2015), mas não é fiscalizada.


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Taise Miranda Lopes

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Sou bióloga e doutora em ciências ambientais pela Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que o acesso ao conhecimento, seja através de políticas públicas e divulgação científica, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais empática, justa e sustentável.

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

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Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.

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Rafaela Granzotti

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Sou bióloga e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás. Acredito que em um mundo globalizado e informatizado como o nosso, informação de qualidade é essencial para que as pessoas tomem decisões e assim sejam agentes de mudança para um mundo mais sustentável.


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