O seu cafezinho está ameaçado pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento


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Os impactos ambientais comprometem o futuro de uma das bebidas mais populares do mundo, o café.

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Raffael Tófoli

emailbiotofoli@gmail.com

Sou biólogo e professor no Instituto Federal Catarinense. Desde a graduação faço pesquisa em Ecologia, área na qual fiz o Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Acredito no poder transformador da educação, da ciência e da divulgação científica!



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Difícil acordar e não tomar aquele cafezinho, não é mesmo? Pois é, ele se tornou um item indispensável para quase todos nós.

A maioria das espécies de café selvagem do mundo tem uma grande chance de se extinguir nas próximas décadas, e isso pode comprometer o futuro das variedades comerciais de café. É isso que diz o estudo publicado na revista científica Science Advances, e liderado por Aaron Davis, pesquisador sênior do Jardim Botânico Real de Kew (kew.org), que fica em uma pequena cidade do Reino Unido. Dentre as principais ameaças às espécies de café, estão o aumento da frequência e duração das secas, a disseminação de pragas e o desmatamento, este último gerado principalmente pela agropecuária e o assentamento das pessoas ligadas a essa atividade.

A equipe descobriu que 60% de todas as espécies de café correm sério risco de extinção

Davis e seus colegas passaram anos catalogando espécimes de plantas de café de todo o mundo, inclusive de florestas remotas na África, Madagascar e Ilhas Maurício. Eles levaram duas décadas para reunir informações suficientes sobre a distribuição e localização das espécies selvagens e sobre as principais ameaças que elas enfrentam. Usando os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), a equipe descobriu que 60 % de todas as espécies de café correm sério risco de extinção. Como agravante, 45 % não constam em nenhum banco de germoplasma (locais que preservam amostras de espécies vegetais para salvaguardar suas características genéticas) e 28 % não tem ocorrência conhecida em áreas protegidas. Os autores do estudo também chamaram atenção para a alta proporção de espécies de café ameaçadas de extinção em comparação com o percentual de espécies de plantas ameaçadas no mundo, que é bem menor: 22 %. “Trata-se de um dos níveis mais altos registrados para um grupo de planta”, afirmaram. 

Número e percentagem de espécies de café segundo as categorias da Lista vermelha da UICN

As descobertas sinalizam uma ameaça potencial para a indústria multibilionária do café, que é dominada por duas variedades: arábica (Coffea arabica) e robusta (Coffea canephora). O café arábica, o mais consumido do mundo, é mais sensível a altas temperaturas, enquanto o robusta não responde bem a solos secos. De acordo com o estudo, seria necessário conservar as 124 espécies silvestres de café para assegurar o futuro do café comercial. Isso é importante porque várias espécies silvestres têm características genéticas muito úteis e que poderiam favorecer o crescimento do café e a sua produção em condições ambientais não muito favoráveis, como em solos secos. Em outras palavras, esse banco genético poderia aumentar a viabilidade das plantas comerciais em face das mudanças climáticas.

Ilustração: variedade de café Arábica

Entretanto, manter a diversidade genética do café fora de seu habitat natural (ex situ) não é uma tarefa fácil, nem barata. Diferentemente de muitas espécies, as sementes de café não se dão muito bem quando armazenadas com o uso de métodos convencionais, como os que mantém as culturas em condições de baixa umidade e temperatura. As técnicas mais avançadas de preservação, como a criopreservação (congelamento) de sementes ou o uso de compostos químicos que retardam o crescimento das plantas, poderiam ser opções melhores e mais econômicas. Contudo, atualmente esses métodos ainda são bastante restritos e são utilizados, quase que exclusivamente, nas principais cultivares de café. Outra preocupação é o fato de que boa parte das áreas protegidas, onde são cultivadas 72 % das espécies de café, não parecem ser tão seguras como deveriam, especialmente por causa da fraca fiscalização ambiental.

Criopreservação no banco de gêneros IITA

A conservação das espécies silvestres de café requer um grande esforço conjunto e exige a contribuição das múltiplas partes interessadas, não só dos países produtores, mas também dos consumidores. Uma das propostas é a ampliação dos recursos dirigidos às áreas protegidas. Por abrigarem uma alta diversidade de espécies de café, é necessário que haja uma forte fiscalização nestes locais. Ainda assim, é bom lembrar que essas áreas não estão imunes a outras pressões, como os efeitos negativos gerados pelas mudanças climáticas. Por isso, também é preciso investir em outras frentes, como o gerenciamento, a quantidade e a qualidade dos bancos de germoplasma de café, e a captação de financiamentos de longo prazo, especialmente, para as espécies prioritárias.

Se pararmos de preservá-los agora, as gerações futuras podem não desfrutar do café da maneira que fazemos hoje

O fato é que as variedades silvestres de cafés foram fundamentais para a sustentabilidade do setor cafeteiro global nos últimos 400 anos. Segundo Davis, se não fosse por essas plantas, nós simplesmente não estaríamos bebendo café. Ele ainda afirma: “se pararmos de preservá-los agora, as gerações futuras podem não desfrutar do café da maneira que fazemos hoje.”

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Para mais informações:

  1. Wild coffee species threatened by climate change and deforestation. 2019. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-019-00150-9
  2. Davis, A. P et al. 2019. High extinc-tion risk for wild coffee species and im-plications for coffee sector sustainability. Science Advances 53: 1-9. Disponível em: https://advances.sciencemag.org/content/5/1/eaav3473

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Raffael Tófoli

emailraffael.tofoli@revistabioika.org

Sou biólogo e professor no Instituto Federal Catarinense. Desde a graduação faço pesquisa em Ecologia, área na qual fiz o Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Acredito no poder transformador da educação, da ciência e da divulgação científica!

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Ángela Gutiérrez C

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De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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David González

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Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Mirtha Amanda Angulo Valencia

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Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.


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