Seaspiracy: dois dados controversos do documentário da Netflix

O documentário Seaspiracy, lançado recentemente pela Netflix, trouxe à tona dados impressionantes sobre o impacto da pesca marítima. Porém, alguns destes dados geraram polêmica sobre a sua veracidade.



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Seaspiracy: dois dados controversos do documentário da Netflix

Em março de 2021, a Netflix lançou Seaspiracy. O documentário mostra como a paixão e a preocupação com o destino da vida marinha levaram Ali Tabrizi a uma jornada para descobrir as principais ameaças que os ecossistemas marinhos enfrentam. Contudo, existem controvérsias em alguns dados apresentados.

Durante sua viajem Ali Tabrizi é perseguido pela polícia japonesa, depois se torna um perseguidor de pescadores ilegais em alto-mar, e é novamente perseguido, mas já dentro do submundo de escravistas tailandêses. Mas o importante é que, em uma grande plataforma como a Netflix, são expostos os efeitos da poluição, da pesca predatória e das mudanças climáticas nas populações de peixes e grandes mamíferos marinhos.

O documentário ganhou alta popularidade, mas também gerou bastante resistência na comunidade científica. Apesar de explorar tópicos importantes, a maioria dos especialistas concorda que há informações imprecisas. Aqui só vamos explorar dois dos dados mais discutidos.

O documentário ganhou alta popularidade, mas também gerou bastante resistência na comunidade científica

O dado que mais gerou polêmica é a projeção de oceanos sem peixes para o ano de 2048. Embora essa projeção catastrófica seja baseada em um artigo científico de 2006, ainda na época, já era bastante questionada.  Agora, quinze anos depois, o que se observa é que as coisas mudaram muito. Por exemplo, existem algumas populações de espécies marinhas que têm respondido bem a medidas de manejo e proteção. Ainda assim, é bom lembrar que se reconhece que essas medidas precisam ser ampliadas e fortalecidas.

Outro dado controverso reside na interpretação errônea da quantidade de plásticos lançados oceanos pela indústria pesqueira. Segundo o documentário, seria quase a metade do montante total. Anualmente, entre 1,14 e 6,4 milhões de toneladas de equipamentos de pesca são abandonados. Isso representa 10-20% do plástico que entra no oceano.

Leão marinho preso à uma rede de pesca.

Embora seja uma enorme quantidade, que é definitivamente mortal para muitos organismos marinhos,  o material pesqueiro abandonado não é a maior fonte de plástico nos oceanos. Depende de onde você foca.

Por exemplo, se olharmos apenas para a “Grande porção de lixo do Pacífico”, haverá muitas redes de pesca. O que acontece é que o material de pesca flutua e se degrada mais lentamente. Por este motivo, fica mais tempo na superfície e representa 46%  do total de plásticos dessa grande lixeira no oceano.

Lixo jogado no oceano e espalhado em uma praia.

O documentário é criticado pelo fato de que essas informações errôneas, e da forma como foram expostas, podem, ao invés de ajudar, acabar prejudicando a luta contra o uso do plástico. Como acontece com qualquer fonte de informação, cabe a cada um analisar e, aceitar ou não, o que lhe é apresentado.

Para mais informações:

  1. Gilman, E. et al. 2021. Highest risk abandoned, lost and discarded fishing gear. Scientific Reports 11:7195.
  2. Hilborn, R. et al. 2020. Effective fisheries management instrumental in improving fish stock status. Proceedings of the National Academy of Sciences 117:2218–2224.
  3. Lebreton, L. et al. 2018. Evidence that the Great Pacific Garbage Patch is rapidly accumulating plastic. Scientific Reports 8:4666.
  4. Valdivia, A. et al. 2019. Marine mammals and sea turtles listed under the U.S. Endangered Species Act are recovering. PLOS ONE 14:e0210164.
  5. Wilcox, C. et al. 2015. Understanding the sources and effects of abandoned, lost, and discarded fishing gear on marine turtles in northern Australia. Conservation Biology 29:198–206.

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Raffael Tófoli

emailraffael.tofoli@revistabioika.org

Sou biólogo e professor no Instituto Federal Catarinense. Desde a graduação faço pesquisa em Ecologia, área na qual fiz o Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Acredito no poder transformador da educação, da ciência e da divulgação científica!

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.


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