Mudamos o mundo, mas não nos lembramos. Como nossa falta de memória pode ameaçar a biodiversidade?

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O mundo em que vivemos sempre foi assim? A riqueza natural que vemos hoje é a mesma que nossos ancestrais conheciam? A percepção da natureza se transforma ao longo do tempo e fica registrada em nossa memória determinando nossa relação com o mundo natural.



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Lembranças naturais

Você já deve ter ouvido histórias de pessoas idosas sobre como um rio antigamente era cheio de peixes, como uma área era cheia de árvores e que diferentes passarinhos sempre cantavam pela manhã. Possivelmente, na sua experiência, aquele rio tem poucos peixes, aquela área sempre foi um pasto e os pássaros raramente cantam. Provavelmente você não contará para as próximas gerações sobre todas essas árvores, peixes e pássaros que nunca viu. Esse fenômeno é conhecido como Síndrome de Deslocamento da Linha de Referência (Shifting Baseline Syndrome – SBS) e pode representar uma grave ameaça para a biodiversidade1.  

A SBS é um fenômeno psicossocial onde um indivíduo aceita as condições ambientais que conhece como sendo o natural, ignorando as deteriorações passadas que esse ambiente tenha sofrido. Assim, as expectativas do que é um ambiente natural são cada vez mais baixas e, consequentemente, há uma aceitação gradual da degradação ambiental na percepção humana sobre as condições ambientais naturais. Essa síndrome ocorre devido à perda de experiência, memória e/ou informações das condições naturais passadas e tem sido atribuída à amnésia geracional ou pessoal1. A amnésia geracional (esquecimento entre gerações) é aquela em que as pessoas mais experientes deixam de transmitir para as gerações mais jovens suas experiências e conhecimentos sobre a natureza ao seu redor. Como consequência, as gerações mais jovens deixam de notar o quão degradado o ambiente se tornou. Já a amnésia pessoal descreve a atualização temporal da percepção pessoal do que é natural. Isso explica o porquê mesmo aqueles que vivenciaram mudanças no meio ambiente acreditarem que as condições atuais não mudaram em relação as condições do passado1.

Figura 1 Português

O conceito de SBS foi descrito pela primeira vez em 1995 pelo biólogo marinho Daniel Pauly. Em seu estudo, ele relata como nem mesmo os pescadores e cientistas do mar estão imunes à perda geracional de informações ambientais2. Pauly notou que os pescadores e cientistas tendiam a estabelecer como linha de referência a quantidade de peixes que eles observaram no início de suas carreiras. O problema é que isso pode levar a uma aceitação gradual da perda de espécies ao longo do tempo3. Outras consequências da SBS são: tolerância aumentada à degradação ambiental, mudança de percepção sobre o que é considerado um estado natural do meio ambiente e o estabelecimento inadequado de linhas de referência para conservação, restauração e manejo ambiental.

Determinar a linha de referência adequada pode ser uma tarefa bastante complexa. Na ausência de dados científicos, Pauly sugere o uso de evidências anedóticas como complemento para determinar corretamente as linhas históricas de referência2. No entanto, evidências anedóticas muitas vezes são sugestivas, abstratas e geralmente refletem histórias pessoais em escalas locais. Além disso, há evidências de que a contextualização anedótica subestima as reais mudanças que ocorreram no passado1.

Recentemente, esses problemas na identificação adequada da SBS ganharam a atenção da ciência. Pesquisadores encontraram duas condições essenciais para a detecção da SBS: 1) a mudança ambiental deve necessariamente ter ocorrido; e 2) qualquer perspectiva da mudança ambiental deve ser consistente com dados biológicos independentes. Caso as duas condições sejam realizadas, as diferenças de percepção encontradas nos indivíduos com diferentes idades ou experiências são atribuídas a amnésia geracional, onde as perdas de conhecimento do mundo natural afetam as gerações mais jovens que não estão cientes das condições naturais do passado. Por outro lado, se os indivíduos acreditam que as condições atuais são iguais às do passado, é um indício de amnésia pessoal1.  

Figura 2 Português

A presença da SBS tende a dificultar a percepção coletiva em relação às condições ambientais locais e regionais, afetando a participação efetiva da população no processo de conservação4.  Existem estudos científicos sobre a eficácia da restauração vegetal que mostram que a amnésia geracional tem apresentado grandes desafios para o estabelecimento das linhas de referência histórica de paisagens devastadas5. Por exemplo, a Mata Atlântica, um hotspot de biodiversidade, conta atualmente com cerca de 28% de vegetação nativa e/ou restaurada6. Esse número pode parecer animador em comparação aos 16% observados na década de 20006, mas não representa a percepção do que era natural na década de 1950, onde as florestas nativas eram o componente principal da paisagem. Além disso, por causa da amnésia pessoal, o aumento recente da vegetação pode ser insuficiente para mudar a percepção pessoal em relação às condições naturais existentes em gerações anteriores.

A boa notícia é que a SBS pode ser minimizada através da restauração contínua do ambiente natural, monitoramento e coleta de dados científicos, aumento das experiências com o mundo natural, educação ambiental e divulgação científica4.   

Diante do cenário atual catastrófico de desmatamento de florestas, poluição do ar e da água, extinção da biodiversidade e mudanças climáticas, é fundamental que os tomadores de decisão, juntamente com a sociedade civil, acreditem no poder transformador da ciência, educação e cultura. Assim as gerações futuras poderão reconhecer e aprender a lidar melhor com a SBS, contribuindo para a conservação da biodiversidade e o manejo sustentável dos recursos naturais da terra, dos quais toda a humanidade depende, além de poderem viver em um mundo mais verde e desfrutar de toda a beleza que a biodiversidade tem a oferecer. 

Referências 

  1. Papworth, S.K. (2010). Evidence for shifting baseline syndrome in conservation. Conservation Letters 2, 93–100 
  2. Pauly, D. (1995). Anecdotes and the shifting baseline syndrome of fisheries. Trends in Ecology and Evolution 10, 430. 
  3. Bonebrake, T.C. (2010). Population decline assessment, historical baselines, and conservation. Conservation Letters 3, 371–378. 
  4. Soga, M. e Gaston, K.J. (2018). Shifting baseline syndrome: causes, consequences, and implications. Frontiers in Ecology and Environment 16, 222–230. 
  5. Guerrero-Gatica, M. (2019). Shifting Gears for the Use of the Shifting Baseline Syndrome in Ecological Restoration. Sustainability 11, 1458. 
  6. Rezende, C.L. (2018). From hotspot to hopespot an opportunity for the Brazilian Atlantic Forest. Perspectives in Ecology and Conservation 16, 208–214. 

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