Fogo no Pantanal: a mão humana, negligência política e mudanças climáticas

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O número de focos de incêndio em 2020 no Pantanal, impulsionado por práticas agrícolas inadequadas e severas secas que devastaram 20% do ecossistema, foi o maior da história.



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Queimadas no Pantanal

Em 2020, além das intensas queimadas na Amazônia1, fomos surpreendidos com uma destruição sem precedentes do bioma Pantanal. De janeiro até o final de setembro, o fogo no Pantanal brasileiro queimou uma área de 32.910 km², segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais2, divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais3.  

A área devastada representa 20% de todo Pantanal, o que se assemelha à 4 cidades de São Paulo ou 18 vezes a superfície de Bogotá. As queimadas mais intensas ocorreram entre julho e setembro, destruindo 27.810 km² e o número de focos de calor foram três vezes maiores que o observado em 2019 e cinco vezes maior que a média de focos de 2016 a 2019. Estes números são alarmantes, indicando um aumento das queimadas na região.

Diversos setores da sociedade e do governo federal justificaram que estas queimadas são eventos naturais e que grande parte é causada por populações indígenas. Entretanto, a polícia federal está apurando o possível envolvimento de criminosos no aumento das queimadas na região e suspeita-se que as ações partiram de cinco fazendas da região de Corumbá, no norte do Mato Grosso do Sul4,5. Imagens de satélite indicam que os focos de incêndio se iniciaram nestas fazendas antes de atingir a área de preservação permanente e os limites do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense e da Serra do Amolar, região remota do Pantanal4,5.

O Pantanal é uma das maiores extensões alagadas contínuas do planeta, é o habitat de mais de 2.000 espécies de animais, entre elas, onça pintada, jacaré, cervo, anta e arara azul. Localizado no centro da América do Sul, a maior parte está localizada no Brasil (150.355 km²), mas também estende suas áreas para Bolívia e Paraguai4. Possui uma diversidade de ambientes, como florestas, cerrado, planaltos e planícies inundáveis, que resultam da influência dos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Altântica6, fornecendo serviços ecossistêmicos de grande importância (alimentos, água potável, recursos genéticos, ecoturismo e recreação, entre outros). 

Pantanal

O fogo é considerado um dos fatores ambientais que regulam a distribuição da vegetação do tipo Cerrado, um dos principais tipos de vegetação do Pantanal. Para que o fogo ocorra, deve haver acúmulo de restos de vegetais secos (folhas, capim, material lenhoso fino) e condições meteorológicas favoráveis. Estas condições estão relacionadas a longos períodos de estiagem, com queda da umidade relativa, altas temperaturas e ventos fortes ou constantes. 

O fogo só ocorre se houver uma fonte de ignição, que pode ser descargas elétricas ou combustão espontânea, que consiste em um evento extremamente raro. Entretanto, os fogos de origem natural ocorrem em áreas alternadas ao longo do tempo, permitindo que os ambientes queimados retornem ao mesmo estágio de organização após a ocorrência do fogo. Isso acontece porque alguns ambientes precisam e são resilientes ao fogo.

Considerando o número de focos de incêndios e as intensidades, a maior fonte de ignição é provavelmente o ser humano, que usa o fogo para manejar áreas agropastoril7. Nas pastagens, os incêndios são usados para as práticas de “roçar e queimar” a vegetação e permitir a transição das culturas. Em áreas florestais, é usado para tornar mais eficiente o processo de desmatamento e estabelecimento de pastagens. Desta forma, a dinâmica do fogo é diferente da natural, ocorrendo em maior frequência ou com intervalo de tempo curtos nos mesmos locais.

 Queimadas frequentes tendem a selecionar as espécies mais resistentes e eliminar as mais sensíveis; intervalos curtos entre queimadads podem interferir nos processos de floração, frutificação e estabelecimento de plântulas, alterando a estrutura da vegetação, eliminando árvores e tornando a fisionomia da paisagem mais campestre. 

Como consequência, o fogo causa destruição da flora e da macrofauna (onças, antas, jacarés, aves, entre outros), o que causa sensibilização em grande parte das pessoas. Mas além desta perda irreparável, muito da fauna que não é vista também é perdida. Espécies que fornecem serviços ecossistêmicos, como as abelhas (i.e. polinização das plantas), cupins e formigas (i.e. decomposição e ciclagem de nutrientes) são grandemente afetadas, sem que seja possível mensurar o impacto desta destruição para o ecossistema. Ainda, os incêndios aumentam a liberação de gases para a atmosfera (dióxido de carbono – CO2 e monóxido de carbono – CO), que contribuem para as mudanças climáticas.

As mudanças climáticas tem aumentado as temperaturas e períodos de seca, o que pode tornar os incêndios cada vez mais frequentes e intensos. Assim, mesmo que os episódios de incêndios ocorram todos os anos, aqueles promovidos pela ação humana não devem ser encarados com naturalidade. 

Referências

  1. Gutiérrez, A. C. 2020. O que está acontecendo na maior selva do mundo durante o período de isolamento pela COVID-19? Bioika #5 edição. https://revistabioika.org/pt/econoticias/post?id=75
  2. Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (2020). https://lasa.ufrj.br/#
  3. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/aq1km/#nota 
  4. https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Sustentabilidade/noticia/2020/09/policia-federal-investiga-acao-criminosa-e-premeditada-em-incendios-no-pantanal.html
  5. https://www.theguardian.com/world/2020/sep/18/brazilian-wetlands-fires-started-by-humans-and-worsened-by-drought
  6. Revista Galileu (2020). https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/09/pantanal-entenda-causas-e-consequencias-dos-incendios-no-bioma.html
  7. https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2020/09/24/fogo-que-destruiu-25-mil-hectares-no-pantanal-de-ms-comecou-em-grandes-fazendas-aponta-investigacao-da-pf.ghtml

Mais informações:

  1. National Geographic Brasil (2020). https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2020/09/queimadas-ja-consumiram-12-do-pantanal-e-tendencia-e-piorar 
  2. BBC (2020). https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54186760

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Oscar Pelaez

emailopelaez@revistabioika.org

Biólogo, Mestre em Ciências ambientais e Doutor em Ciências. Atua na área de pesquisas em ecologia, com ênfase em ecologia de peixes, diversidade funcional e filogenética.

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Taise Miranda Lopes

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De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Formada em Biologia e Comunicação Social, especilista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Mirtha Angulo

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Bióloga pela Universidade do Cauca (Colômbia). Estudante de Doutorado em Ciencias Ambientais na Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Acredito que a socialização dos estudos ecológicos, pode nos ajudar a criar consciência da importância dos nossos recursos naturais e dessa forma garantir seu cuidado e preservação.


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