A contribuição da pesquisa cultural para a transição sustentável


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Um estudo da indústria têxtil nas regiões euro-mediterrâneas, mostra como a pesquisa cultural pode ajudar a acelerar mudanças sustentáveis, sem as quais a humanidade entrará em uma crise ambiental irreversível em um futuro não muito distante.

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Óscar Miguel Blanco Sierra

emailoscar.blanco@uv.es

Sociólogo pela Universidade Nacional da Colômbia, Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Valencia. Pesquisador das relações entre cultura e processos de mudança socioeconômica e sua aplicação em políticas, programas e projetos.



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Amostra da tradicional tecelagem manual dos Andes peruanos

Gradualmente, cada vez mais vozes proclamam que a transição para um cenário sustentável requer uma mudança cultural. Isso porque, embora essenciais, os grandes avanços científicos e técnicos são insuficientes, sendo necessária a prática por meio da ação coletiva, e não apenas a mudança individual, como afirma a influente ativista e escritora Rebecca Solnit1. Então, como a pesquisa em cultura pode nos ajudar a entender as mudanças sustentáveis?

Embora a sustentabilidade seja considerada um campo de confluência de diferentes disciplinas —não apenas científico-técnicas, mas também das ciências políticas, gestão organizacional, economia e ciências sociais— as áreas encarregadas do estudo científico da cultura não estão no panorama transdisciplinar de pesquisas voltadas à produção de novos conhecimentos para a redução dos danos ao meio ambiente.

Mulheres vestidas com o tradicional vestido de noiva da etnia Xhosa da África do Sul

Sem dúvidas, isso se deve à dificuldade de definir e enquadrar em um método científico a mais complexa das dimensões humanas: a cultura. Por outro lado, as questões que as pesquisas nesta área colocariam são muito arriscadas, por exemplo, qual é o papel da dimensão cultural (artes, estética, design ou patrimônio cultural) na transição para um modelo sustentável? Entendemos que a educação é um campo poderoso de ação em prol de metas sustentáveis, mas também é claro que as mudanças culturais nesse nível serão obtidas de geração em geração e o que não temos é tempo, como diz o especialista Antonio Turiel2. Então, o que a pesquisa cultural pode fazer para acelerar mudanças sustentáveis, sem as quais a humanidade entrará em uma crise ambiental irreversível em um futuro não muito distante?

Colcha bordada

Estas questões enquadraram a minha investigação de doutorado realizada na Universidade de Valência (Espanha)3, que foram abordadas através de um estudo com o caso específico da indústria têxtil nas regiões euro-mediterrâneas, da qual derivam três grandes propostas para articular a cultura no interior de um caminho de transição sustentável:

1. A sustentabilidade deve ser entendida como um sistema em que a cultura é um componente central

Mulher tecendo no Centro Têxtil Awanacancha

A transição não consiste apenas em produzir conhecimentos ou tecnologias que reduzam o impacto ambiental. Nem é simplesmente responsabilidade dos líderes políticos (esperamos pouco de sua fraca vontade). As instituições e organizações culturais devem ser consideradas como parte orgânica juntamente com outras instituições acadêmicas ou políticas, centros de P + D (Pesquisa e Desenvolvimento), indústrias e sociedade civil que, juntos, geram territórios sustentáveis. Um dos achados mais relevantes da pesquisa revela como um museu têxtil na Itália se torna a peça central dentro da estratégia de inovação territorial ao integrar os interesses da indústria, das instituições e da sociedade para devolver a produção têxtil perdida devido à dinâmica da globalização da indústria.

2. A cultura deve ser entendida como um laboratório

Escultura tecida na Renwick Gallery

Movimentos sociais, artistas, museus e instituições culturais, artesãos, designers, comunidades organizadas, são agentes que experimentam novos valores sociais. Os estilistas mais ousados são incompreendidos pelo bom senso, mas vão vários passos à frente, apontando o caminho para novas mentalidades e estilos de vida e novas visões sobre a nossa relação com a natureza. Outro dos resultados relevantes da pesquisa consiste na forma como os espaços culturais, oficinas de artesanato ou salas de aula em escolas de design de moda se constituíram como laboratórios de experimentação, daí a necessidade de avaliar a capacidade que têm esses espaços e agentes culturais como motores de mudança social.

3. O design é um catalisador de transição

Evento

Além de uma atividade contemplativa, a cultura surge como um campo ativo para o qual convergem todas as nossas representações da realidade e que, portanto, é possível transformar. O design, neste sentido, oferece-nos uma metodologia muito pragmática que nos permite identificar valores insustentáveis e transformá-los. Trata-se de algumas iniciativas de reciclagem e reaproveitamento de roupas, artesãos que buscam gerar valor na origem das vestimentas, que resgatam técnicas e materiais têxteis ancestrais, movimentos sociais que questionam o modelo da grande indústria ... todos eles apontam para mudanças profundas nos valores sociais dominantes, rumo a novos estilos de vida mais responsáveis, onde o desenho permita criar um plano de ação concreto para que esses novos valores deixem de ser marginais à sociedade e se tornem visões alternativas e válidas para a transição, onde começam as mudanças geracionais ocorrem como mudanças radicais, o que é um imperativo no prazo imediato.

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Para mais informações:

  1. R. Solnit, “Big oil coined ‘carbon footprints’ to blame us for their greed. Keep them on the hook,” The Guardian, 2021. [Online]. Available: https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/aug/23/big-oil-coined-carbon-footprints-to-blame-us-for-their-greed-keep-them-on-the-hook?utm_source=instagram&utm_campaign=BigOil. [Accessed: 25-Aug-2021].
  2. J. Bordera, “Antonio Turiel: ‘Necesitamos un cambio cultural que requiere décadas; el problema es que no tenemos décadas,’” El Salto Diario, València, 2021.
  3. Ó. Blanco, “Cultura e innovación en el sector del textil y la confección: Transición socio-técnica, diseño y experimentación cultural,” Universitat de València, 2021.

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Rosa Maria Dias

emailrosa.dias@revistabioika.org

Bióloga com Doutorado em Ecologia pela Universidade Estadual de Maringá (PEA/UEM). Considero que só através da socialização do conhecimento poderemos alcançar uma sociedade mais justa. Tenho grandes e diversos sonhos! Um deles é acreditar que a educação amplia as almas e recria os horizontes; é a alavanca das mudanças sociais!

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Ángela Gutiérrez C

emailangela.gutierrez@revistabioika.org

De acordo com minha formação na educação pública, acredito na necessidade de fazer acessível para todos, os resultados das pesquisas científicas. O que é feito? Para que serve? Como posso contribuir? Acredito que o trabalho multidisciplinar é a chave para propor soluções que possam gerar uma sociedade justa, sustentável e igualitária.

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Carolina Gutiérrez Cortés

emailcarolinagc@revistabioika.org

Sou microbióloga e trabalho com a geração de novas alternativas para o processamento saudável de alimentos mediante o uso de aditivos naturais. Espero poder compartilhar este conhecimento e aproveitar as experiências de outras pessoas. Por isso, acredito no desafio de comunicar com uma linguagem simples tudo o que é produzido na academia.

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David González

emaildavid.gonzalez@revistabioika.org

Publicitário, fã da linguagem escrita e audiovisual. Acredito que a ciência, a tecnologia, a arte e a comunicação têm o poder de criar bem estar, toda vez que estejam ao serviço da cultura, do cuidado do entorno e das causas mais generosas.

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Isabela Machado

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Formada em Biologia e Comunicação Social, especialista em Comunicação empresarial. Sou mestranda em Tecnologias Limpas e Sustentabilidade, com experiência científica e profissional em Ecologia Aquática, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Jornalismo Ambiental e Assessoria de imprensa.

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Rafael Franco Ferreira

emailrafaelfferreira1987@revistabioika.org

Físico e estudante de doutorado em Física da Universidade Estadual de Maringá (Brasil). Como entusiasta das ciências e da filosofia, acredito que o conhecimento transforma o indivíduo e sua cultura. Penso que a socialização das ciências ajuda a criar uma sociedade mais crítica, justa e independente de seus governantes.

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Sonia Yanira Rodríguez Clavijo

emailsonia.yanira@revistabioika.org

Com formação em Microbiologia, tenho trabalhado em biologia molecular e bioinformática. Ultimamente o ensino de zoonoses e epidemiologia, voltado para profissionais do meio ambiente, me permite fazer parte de uma mudança necessária em nossa sociedade e sua relação com o meio ambiente.


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