Chico vive!


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A vida e o legado do Chico, meu avô, são praticamente impossíveis de resumir em poucas páginas. Aqui eu escolhi contar a história do principal legado conquistado pelo movimento dos seringueiros dos anos 80.




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Chico Mendes
Chico Mendes. / Imagem: Pilly Cowell
Há 30 anos, em 22 de dezembro de 1988, o Brasil perdia Chico Mendes.

Defini-lo, que hoje é condecorado herói nacional, é uma tarefa bem difícil, mas vou me arriscar. Em poucas palavras, Chico Mendes foi um homem à frente do seu tempo, com inteligência única, forte liderança, altruísta e com o dom de tocar as pessoas com sua fala mansa. Hoje, 30 anos após seu assassinato, temos que voltar no tempo pra compreender o quanto seu legado mudou o mundo que temos hoje. 

Chico Mendes

Nascido no seringal Porto Rico em Xapuri no estado do Acre no dia 15 de dezembro de 1944, Chico começou a cortar seringa ainda menino, aos nove anos de idade para ajudar o pai.

Naquela época predominavam relações sociais e econômicas similares à escravidão na Amazônia. Somente aos 19 anos, foi alfabetizado por um refugiado político que vivia nas matas brasileiras. Iniciou sua vida sindical anos depois, em 1975, ajudando a criar os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e de Xapuri. Uma das principais lutas do sindicato naquela época era impedir com que fazendeiros latifundiários levassem ao desmatamento de grandes extensões de terra, o que prejudicava a permanência dos seringueiros na floresta.

Chico Mendes

Em 1985, Chico Mendes liderou a organização do 1º Encontro Nacional dos seringueiros realizado em Brasília que resultou na criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e da proposta de Reserva Extrativista. A ideia de grupos sociais lutando pela proteção da natureza porque dela dependiam para viver, evocada por Chico Mendes em nome de milhares de seringueiros, castanheiros, pescadores e outros grupos extrativistas, mudou o pensamento ambiental no Brasil e no mundo. A proposta de criação de Reservas Extrativistas passou a canalizar a energia do CNS desde sua criação com o apoio das entidades ambientalistas de todo o mundo.

Chico Mendes

Ao lutar contra o desmatamento da Amazônia, grilagem de terras e conflitos fundiários, Chico Mendes provocou a ira de grileiros de terra que se viam ameaçados pelas conquistas que os seringueiros estavam alcançando e foi assassinado, no dia 22 de dezembro de 1988. Em consequência do impacto internacional do assassinato de Chico Mendes, o governo brasileiro aprovou proposta do CNS de transformação das áreas tradicionalmente ocupadas em reservas extrativistas. O conceito de valor da floresta em pé, defendido por ele, culminou no reconhecimento, pelo Estado, do papel social desempenhado pelas populações extrativistas na conservação da natureza. 

Chico Mendes

As Reservas Extrativistas são um dos grandes legados do Chico e dos povos da floresta. As quatro primeiras só foram criadas em 1990. Atualmente, na Amazônia, as Reservas Extrativistas e Reservas de Desenvolvimento Sustentável, federais e estaduais, totalizam 92 unidades, cobrem uma área de 34.925.910 hectares, representando 4,8% da Amazônia Legal, 19% das UCs e 8% das florestas da região, beneficiando 1.500.000 pessoas. Em outras regiões do Brasil existem 29 unidades abrangendo 534.285 hectares.

A vida e o legado do Chico, meu avô, são praticamente impossíveis de resumir em poucas páginas. Aqui eu escolhi contar a história do principal legado conquistado pelo movimento dos seringueiros dos anos 80. Mas são muitas as histórias de vida de um homem que realmente fez a diferença nesse mundo. Agora, após 30 anos sem ele aqui, esse legado vem sendo ameaçado por políticas que querem acabar com o meio ambiente e as áreas protegidas. Por pessoas que querem esquecer o passado e hoje passam a ludibriá-lo. O que ninguém sabe é o quanto dependemos dessa conexão com nossa casa, o planeta Terra, para sobrevivermos. A luta é pela humanidade.

No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.

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